Título: IOF não faz diferença, diz Martin Wolf
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/10/2010, Economia, p. B4
Colunista do 'FT' vê com ceticismo as medidas do governo para conter a valorização do real, e acredita que não impedirão fluxo de investimentos
O mais influente colunista econômico do mundo, Martin Wolf, do "Financial Times", mostra-se cético quanto aos efeitos de médio e longo prazos das medidas anunciadas pelo governo para conter a valorização do real. "Duvido que faça qualquer diferença", afirmou ao "Estado". Ele foi a principal estrela de um evento promovido ontem à noite pela Faap para discutir o papel do Estado na crise financeira internacional.
Sergio Neves/AE Pode ser o Brasil. Wolf disse acreditar que a próxima crise econômica mundial acontecerá em um país emergente, justamente por causa do fluxo de capitais
Wolf disse não acreditar que as taxas de câmbio reflitam movimentos especulativos de curto prazo - a elevação do IOF de 2% para 4% tem como grande objetivo frear justamente a entrada de dinheiro especulativo no Brasil.
"O principal fator que influi na formação da taxa de câmbio é o fluxo de capitais, que, por sua vez, se move de acordo com as oportunidades de investimento e as diferenças entre as taxas de juros dos países", argumentou. "O Brasil é um país com taxa de poupança relativamente baixa e taxas de juros relativamente elevadas. Por isso, é muito atrativo para o capital estrangeiro."
Wolf observou que corporações do mundo todo estão em busca de boas oportunidades de investimento. E essas estão nos países emergentes, como o Brasil, que, diferentemente das nações desenvolvidas, têm registrado forte expansão econômica.
"Se você olhar para as economias emergentes mais atrativas do mundo, com sistemas financeiros relativamente abertos, o Brasil é a número 1", analisou. "Portanto, é absolutamente inevitável que seja inundado com capitais. Uma pequena taxação não vai fazer diferença."
O colunista inglês disse acreditar que a próxima crise econômica mundial ocorrerá em um país emergente justamente por causa do enorme fluxo de capitais atual. Ele frisou que não gosta de fazer previsões, mas reconheceu que o Brasil é um dos candidatos a ter problemas.
"O Brasil está superaquecido, está claramente indo rápido demais e há um monte de capital vindo (e por vir). Isso me preocupa um pouco. Não estou prevendo uma crise, que fique claro. Mas há riscos. Há fatos aqui."
Para Wolf, o fluxo de capitais não faz mal a um país quando é usado para financiar investimentos e, por tabela, uma expansão mais acelerada da economia.
Bolsa. O ex-presidente do Banco Central (BC) Arminio Fraga, que também participou do evento, avalia que, "temporariamente", a medida do governo pode funcionar um pouco. Ele lembrou que, no início dos anos 90, quando esteve no BC pela primeira vez, chegou a adotar mecanismo semelhante.
"Mas, no longo prazo, não funciona", disse. "Uma solução mais definitiva é construir condições para termos uma taxa de juro mais baixa, porque isso é um fator de atração de capital de curto prazo. Não adianta tapar o sol com a peneira", observou.
Fraga, que atualmente preside o Conselho de Administração da BM&FBovespa, considerou positivo o fato de o governo ter excluído os investimentos em Bolsa do aumento do IOF. "Pode parecer correlacionado com a minha presença na Bolsa, mas eu sempre defendi um tratamento diferente (para a Bolsa) porque esse tende a ser um capital de longo prazo", afirmou.