Título: França prende 12 em ação antiterror
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/10/2010, Internacional, p. A21

Serviços de segurança da França anunciaram ontem a prisão de 12 suspeitos de "associação a organizações terroristas". Entre os detidos, estão militantes islâmicos que receberiam jihadistas com passagem por campos de treinamentos do Paquistão e do Afeganistão. Apesar das relações aparentes com a Al-Qaeda, as duas operações seriam independentes e sem relações com as ameaças de ataques que pairam sobre a Europa há 15 dias.

As primeiras prisões ocorreram nas cidades de Marselha e Bordeaux, no sul e no sudoeste do País. Os três primeiros suspeitos - cujos nomes não foram revelados - pertenceriam a uma rede islâmica.

Eles foram detidos por supostamente organizarem a logística para acolher jihadistas na França que viveriam na Europa com documentos falsos, também obtidos pela quadrilha.

A detenção, realizada pela Direção Geral de Informações Interiores (DCRI) - um dos serviços secretos do País -, teria sido possível graças à prisão no sábado do francês Ryad Hannouni, de 24 anos, em Nápoles, na Itália.

Segundo os órgãos de prevenção ao terrorismo, o jovem estaria retornando à Europa após passagens por campos de treinamento no Paquistão e no Afeganistão. Hannouni possuiria um conjunto de ferramentas e matérias-primas para a fabricação de explosivos. Com ele foi apreendida uma agenda com referências aos três integrantes da rede.

Em outra operação policial, realizada pela Subdireção Antiterrorismo (SDAT) nas cidades de Marignane e Aubagne, nas imediações de Marselha, nove pessoas foram presas quando tentavam obter armas e explosivos no mercado negro.

Os envolvidos, cuja identidade também não foi revelada, responderão por "associação a organização terrorista". Segundo a rede de TV TF1, o grupo já detinha armas, entre as quais fuzis Kalashnikov.

Apesar das evidências, o Ministério do Interior reiterou ontem que as prisões não teriam relações com as ameaças terroristas que motivaram os governos dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e do Japão a emitirem alertas a seus compatriotas sobre ameaças terroristas de curto prazo nas principais capitais do continente.

Mesmo com a negativa, o ministro do Interior da França, Brice Hortefeux, voltou a advertir ontem para o risco de ataques. "A ameaça é real, nossa vigilância é total e cada francês deve saber que nós estamos fazendo tudo para assegurar sua segurança e proteção", afirmou o ministro.

Também ontem, o governo alemão confirmou que oito alemães considerados "combatentes islâmicos" foram mortos por forças americanas no nordeste do Paquistão.

As mortes confirmam a informação de que pelo menos 65 alemães, ligados a uma mesquita de Hamburgo, teriam partido para treinamento em campos do Afeganistão e do Paquistão, preparando-se para ações terroristas.

Entre eles estaria o alemão Ahmed Siddiqui, de 36 anos, um extremista do Movimento Islâmico do Usbequistão (MIU) preso em Cabul, no Afeganistão, que, segundo a imprensa alemã, teria revelado os planos de ataques terroristas nas capitais europeias.

TV francesa. Depois da superexposição das ameaças terroristas nas últimas duas semanas, a rede de TV pública France Télévision tratou com discrição as informações sobre os suspeitos presos ontem no país.

Só imagens e cerca de 30 segundos de narração foram dedicados ao tema no principal telejornal da France 2, o maior canal do grupo.

PARA LEMBRAR

Desde meados de setembro, os órgãos de segurança e espionagem franceses elevaram seu nível de vigilância por causa de uma suposta ameaça de atentado contra alvos civis em Paris. Pontos de grande concentração de pessoas, como a Torre Eiffel, o Aeroporto Roissy-Charles de Gaulle e a rede de metrôs estão recebendo atenção reforçada. O aumento da tensão entre os terroristas e a França teria relação com uma operação frustrada das Forças Armadas francesas para resgatar Michel Germaneau, um refém sequestrado pela Al-Qaeda do Magreb Islâmico em abril e assassinado em julho. Na ação, sete terroristas teriam sido mortos. Em represália, a AQMI jurou atacar a França.