Título: Câmbio chinês distorce o comércio, diz Barral
Autor: Dantas, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/10/2010, Economia, p. B1

Técnicos do ministério do Desenvolvimento estudam lei aprovada pela Câmara dos EUA contra a China

Preocupadas com o fraco desempenho da balança comercial, autoridades do governo brasileiro elevam o tom das reclamações diretas contra a China. O secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, disse ontem que o yuan desvalorizado "distorce" o comércio global.

"A China está afetando todo o sistema multilateral de comércio", disse Barral, em entrevista ao Estado, após se reunir com empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). "O câmbio chinês distorce todos os preços."

Segundo o secretário, os efeitos do yuan desvalorizado são ainda mais fortes para o Brasil, porque o País vende commodities para a China, o que atrai muitos dólares.

A posição oficial do governo brasileiro é que o assunto deve ser discutido em fóruns globais, como a reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) este fim de semana em Washington, e o encontro do G-20, em Seul, na Coreia do Sul, em novembro.

Técnicos do Ministério do Desenvolvimento, no entanto, avaliam "com atenção" uma lei recém-aprovada pela Câmara dos Deputados dos Estados Unidos. Conforme a legislação, que ainda tem de ser votada no Senado, os EUA elevariam as tarifas de importação para compensar o yuan desvalorizado.

"É uma sinalização política importante dos americanos e estamos avaliando com atenção", disse Barral. Ele ressalta que ainda não está claro se a lei cumpre as normas da Organização Mundial de Comércio (OMC) ou se, no futuro, poderia ser utilizada contra o Brasil.

Pressão. Caso seja aprovada, a lei americana pode desencadear uma "guerra comercial" global. Segundo o Estado apurou, a percepção dos Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento é de que se trata de um "instrumento de pressão incrível" dos EUA contra a China. A avaliação é que o "timing" dos americanos foi perfeito ao anunciar a medida um mês antes da reunião do G-20.

Mas não há consenso no governo se o Brasil seguiria os passos dos Estados Unidos. O Itamaraty quer evitar um confronto diplomático com a China. Os técnicos do Banco Central também não veem a ideia com bons olhos: são contra criar uma distorção na economia para combater outra.

Para o diretor de comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca, não apenas o Brasil, mas vários países deveriam seguir os EUA e adotar medidas contra a China. "É a única maneira dos chineses entenderem que estão provocando um desequilíbrio na economia global".

Substituição. Até agora, o governo brasileiro estava confortável com as importações da China, que são majoritariamente bens de capital e matérias-primas para a indústria. A avaliação era que as compras de produtos chineses ajudavam a economia a crescer.

Essa percepção mudou. Por causa do real valorizado, os insumos chineses não estão apenas complementando a oferta local, mas substituindo produtos feitos no Brasil.