Título: Novo IOF não segura desvalorização da moeda americana, que cai a R$ 1,67
Autor: Dantas, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/10/2010, Economia, p. B1

Aumento da alíquota do imposto afeta pouco a rentabilidade dos papéis brasileiros e não provoca recuo na entrada de dólar, que sofre queda global

No primeiro dia em vigor do novo IOF de 4% para aplicações de estrangeiros em renda fixa, o dólar voltou a cair e fechou em R$ 1,67, ante R$ 1,691 na segunda-feira. É a cotação mais baixa desde 2 de setembro de 2008.

Houve consenso no mercado financeiro as razões pelas quais a medida não conseguiu, pelo menos de início, brecar a queda do dólar: a desvalorização da moeda americana é um fenômeno global e avassalador, o aumento do IOF não atinge os fluxos para bolsa e para investimento direto (para o setor produtivo) e a alíquota de 4% ainda deixa uma enorme diferença entre o custo de captação externa e a rentabilidade dos papéis brasileiros.

"O IOF pode ajudar, mas não acho que resolva a questão para além de um prazo muito curto", comentou Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), e sócio fundador da gestora Gávea Investimentos.

No mercado internacional, o movimento de queda do dólar é generalizado. Nos últimos seis meses, a valorização de 5,5% do real ante o dólar está apenas em sexto lugar, numa lista de 13 moedas. O recordista é o iene, que ganhou 13,4%. As moedas da Suíça, Suécia, Cingapura e Nova Zelândia também subiram mais em relação ao dólar do que o real.

Crise nos EUA. A queda do dólar está ligada à deterioração das expectativas de crescimento da economia americana. O Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) já deu sinais da disposição de retomar o chamado "afrouxamento quantitativo". Como os juros básicos americanos já são de praticamente zero, a única forma de fazer estímulo monetário é o Fed injetar dinheiro na economia comprando títulos em poder do público. Essa expectativa de inundação de dólares derruba as cotações da moeda.

Do ponto de vista do real, como explica Felipe Tâmega, economista-chefe do Modal Asset Management, a valorização ante o dólar deriva tanto do diferencial de juros (externo e interno) quanto do diferencial de crescimento das duas economias. Nesse segundo caso, os fluxos mais afetados são o dinheiro que vai para a bolsa e para os investimentos diretos estrangeiros. "Se olharmos para o mundo e o Brasil, o diferencial de crescimento deve continuar, e o de juros também - não se prevê aumento de juros nos EUA tão cedo."

No caso dos fluxos de portfólio (isto é, excluindo o investimento direto), fica claro que os fluxos para a bolsa assumiram o papel mais importante. Desde o início do ano até setembro, as entradas líquidas para investimento em ações alcançaram US$ 14,7 bilhões, comparado a US$ 12 bilhões para a renda fixa (que de fato entraram no País). E esses números ainda não incluem a megacapitalização da Petrobrás.

Bolsa. Para participantes do mercado, o governo terá de estender o IOF de 4% às aplicações em renda variável, se quiser conter o dólar. O operador de câmbio da Interbolsa Brasil, Ovídio Pinho Soares, lembra que "o dinheiro pode ir para o Bovespa e depois buscar o ganho do juro por meio de operações estruturadas". Ele se refere a operações com derivativos, ferramentas financeiras que permitem mudar as características das aplicações.

Mesmo em termos de renda fixa, o IOF de 4% só deve reduzir o apetite para as transações muito curtas, em que de fato a alíquota anula de forma substantiva os ganhos das operações. Os juros de um ano nos EUA estão abaixo de 0,5%, o que se compara com rentabilidades acima de 11% para aplicações no Brasil. O novo IOF ainda deixa uma gorda rentabilidade para o aplicador. No curto prazo, abaixo de um ano, a alíquota tem impacto substancial.

Para Arminio, o "Brasil tem de construir condições para ter juros bem mais baixos, sem gerar inflação". Ele acha que só assim seria possível aliviar um pouco a pressão cambial. Mas, para tanto, seria preciso controlar de forma bem mais efetiva o crescimento dos gastos do governo e do crédito público. / COLABOROU CRISTINA CANAS

PARA LEMBRAR

Há um ano, a criação da alíquota de 2% do IOF reduziu temporariamente o ingresso de dólares para aplicações financeiras, mas causou pouco efeito nas cotações da moeda. Dados do BC mostram que, em novembro de 2009 - o primeiro mês com o imposto -, o fluxo de investimentos para compra de títulos da renda fixa caiu 53,8% ante outubro, para US$ 912 milhões. Apesar da forte queda, o câmbio praticamente não se alterou e o dólar subiu apenas 0,4% no mês, para R$ 1,7505. A ligeira alta das cotações ocorreu em um mês em que o fluxo cambial havia sido de US$ 3,89 bilhões. Dos dólares que entraram, boa parte foi para os investimentos financeiros - US$ 912 milhões para renda fixa e US$ 1,93 bilhão para ações. Portanto, os números mostram que a nova tributação não impediu o ingresso de dólares para investimentos, mas conseguiu reduziu o ritmo de entrada.