Título: Dirigentes do PT pedem posição clara sobre aborto
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/10/2010, Nacional, p. A7

Após reunião, coordenadores regionais dizem que Dilma precisa sair dessa ""encruzilhada""

Coordenadores estaduais da campanha de Dilma Rousseff cobraram ontem uma posição clara da candidata em relação ao aborto para encerrar a polêmica. Reunidos com o secretário-geral do PT, José Eduardo Martins Cardozo, dirigentes petistas avaliaram que Dilma precisa sair dessa "encruzilhada", mesmo se tiver de desagradar a setores do PT que pregam a legalização do aborto.

"Esse não é o tema mais importante dessa campanha, nem vamos dizer quem vai para o céu ou para o inferno. Não se trata de uma eleição para escolher líder religioso, mas, sim, quem vai ser presidente da República.", afirmou o deputado André Vargas (PR), secretário de Comunicação do PT.

Integrante da Frente Parlamentar contra a Legalização do Aborto, Vargas provocou mal-estar entre as mulheres do PT ao escrever no Twitter que o partido não pode ser pautado por um debate de "feministas".

Cardozo lembrou que a candidata petista já se declarou contra o aborto - tratando o tema como uma questão de saúde pública - e não vai alimentar a polêmica. "Trata-se de uma discussão vazia", insistiu.

Em agosto de 2007, depois de muita polêmica, o PT aprovou, em seu 3.° Congresso, resolução que defende o direito da mulher de interromper a gravidez. Na campanha, porém, Dilma se manifestou contra o aborto, para não perder votos entre os cristãos. No diagnóstico dos presidentes estaduais do PT, a forma como a questão está posta não tem convencido ninguém.

Presente à reunião, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu - abatido pelo escândalo do mensalão, em 2005 - disse, a portas fechadas, que os dirigentes da campanha precisam se organizar nos Estados para desmascarar as "mentiras" contra Dilma.

Na sua avaliação, foi o adversário do PSDB, José Serra, que tentou indispor a candidata do PT com os evangélicos e a Igreja Católica. "Mas o Serra também tem posição parecida com a nossa. Tudo o que estão fazendo não passa de calúnia", comentou Vargas.

Ceará. Além de escancararem a insatisfação com o que chamaram de "inércia" diante da polêmica do aborto, os coordenadores da equipe de Dilma nos Estados também se queixaram da cúpula da campanha. A prefeita de Fortaleza e presidente do PT do Ceará, Luizianne Lins, reclamou, por exemplo, do fato de Ciro Gomes (PSB-CE) ter sido chamado para a comandar a campanha no Nordeste. "Eu não vou me submeter à coordenação do Ciro. Briguei com ele por causa da Dilma e, se for para me submeter agora a Ciro, estou fora", protestou Luizianne, sem esconder as rusgas com o deputado, que queria ser candidato à Presidente da República.

Coordenadora do comitê de Dilma no Ceará, a prefeita disse que não foi nem mesmo consultada sobre a inclusão de Ciro no comitê. Outros petistas reclamaram da falta de material de campanha e de informações para defender Dilma nos Estados.

O encontro reuniu petistas que ganharam e perderam eleições. "É a hora de lamber feridas, mas nós temos de ver que Dilma chegou em primeiro lugar nessa corrida. Ninguém deve ficar com cara de velório", resumiu o secretário de Mobilização, Jorge Coelho.