Título: Entrada de dólares bate recorde
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/10/2010, Economia, p. B4
Com a operação de capitalização da Petrobrás, entraram US$ 16,71 bilhões em setembro, o maior valor da série iniciada em 1982
A operação de aumento de capital da Petrobrás atraiu tantos estrangeiros que setembro terminou com novo recorde na entrada de dólares para investimentos financeiros no Brasil.
Dados do Banco Central mostram que US$ 16,71 bilhões ingressaram no mês passado, maior valor da série iniciada em 1982. Mesmo com as recentes medidas do governo para tentar conter a queda do dólar, o mercado acredita que a entrada de recursos deve continuar, já que o juro brasileiro é muito superior ao padrão internacional e o mercado acionário segue atrativo.
No mês em que a estatal Petrobrás realizou a maior oferta de ações da história, o Brasil recebeu volume recorde de dólares na chamada conta financeira, onde são registradas transferências de recursos para compra de ações e títulos de renda fixa, empréstimos, remessa de lucros e investimentos produtivos, entre outras transações.
Por essa via, foi batido o recorde anterior, de US$ 13,1 bilhões em outubro de 2009. Naquele mês, a filial brasileira do banco espanhol Santander atraiu muitos estrangeiros em um bem-sucedido lançamento de ações.
"A Petrobrás explica boa parte desse resultado forte, mas há outros fatores que não podem ser ignorados, como o mercado de renda fixa que continua bastante atrativo para o estrangeiro", diz o economista da LCA Consultores, Homero Guizzo. Ele lembra que a renda fixa atrai muitos dólares, tanto que o governo dobrou a alíquota de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para essas operações no início da semana para tentar amenizar o efeito da entrada de dólares nas cotações do câmbio.
Na renda fixa, o interesse dos estrangeiros ocorre graças ao nível do juro brasileiro. Enquanto economias como Estados Unidos, Europa e Japão têm taxa efetiva - quando descontada a inflação - próxima de zero, o Brasil tem taxa real próxima de 6% - já que a Selic está em 10,75% e a inflação esperada para 2010 está em torno de 5%.
"Mesmo sem Petrobrás, o fluxo de dólares tende a continuar, ainda que em menor ritmo, porque o estrangeiro quer esse juro. Ele pode até pegar um empréstimo no exterior para aplicar no Brasil", diz o economista-chefe da Souza Barros Corretora, Clodoir Vieira. Para ele, o IOF maior só vai inibir investidores de curto prazo. "Se você pensar em 2 ou 3 anos, esse aumento do IOF é diluído e ele continuará vindo."
Compras do BC. Diante da entrada recorde de dólares, o BC acelerou a compra da moeda no mercado. Em setembro, foram adquiridos US$ 10,75 bilhões em leilões diários. Em alguns dias, foram duas operações. Esse foi o maior valor comprado pelo BC desde a retomada da estratégia de reforçar as reservas internacionais em maio de 2009.
A entrada de dólares em setembro só não foi maior porque o comércio exterior amargou resultado negativo pelo quarto mês seguido. No mês passado, o pagamento pelas importações superou a receita com exportações em US$ 2,99 bilhões. Dessa forma, o fluxo cambial total terminou setembro com ingresso líquido de US$ 13,73 bilhões.