Título: Governo brasileiro deve conter gastos, afirma o FMI
Autor: Kuntz, Rolf
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/10/2010, Economia, p. B10

Previsões do fundo apontam para um crescimento de 7,5% para a economia brasileira este ano e de 4,5% em 2011

A economia brasileira vai bem, deve crescer 7,5% neste ano e 4,5% em 2011, mas está na hora de conter os gastos do governo para reduzir as pressões sobre o câmbio, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Brasil, China, Índia e outros emergentes aparecem como fontes de dinamismo no Panorama Econômico Mundial divulgado ontem pelo FMI.

Deles dependerá a maior parte do crescimento global de 4,8% estimado este ano e de 4,2% projetado para o próximo. A recuperação da maior parte da América Latina tem sido mais veloz do que se esperava e o produto regional deve aumentar 5,7% em 2010 e 4% no ano seguinte. Mas há velhos problemas não resolvidos e novos desafios acumulados desde o início da crise. A valorização cambial produzida pelo acúmulo de dólares é um deles.

No caso do Brasil, o Panorama aponta os sinais de superaquecimento detectados no primeiro semestre, quando a economia cresceu em ritmo equivalente a mais de 8% ao ano. Surgiram pressões inflacionárias e o Banco Central (BC) elevou os juros. Foi uma "resposta adequada", segundo a economista Petya Koeva Brooks, chefe da Divisão de Estudos Econômicos do FMI.

Mas outros problemas continuaram a acumular-se. O gasto público tem crescido rapidamente e o superávit primário, até agosto, ficou em torno de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), bem abaixo da meta de 3,3%. Recomendação da economista: uma desaceleração do gasto ajudará a alcançar a meta e permitirá aliviar o peso da política monetária. Com isso será mais fácil deter a valorização do real.

O comentário de Brooks tornou mais explícita a sugestão contida no Panorama, no capítulo sobre a América Latina. Segundo o documento, "um aperto fiscal ajudará a cuidar das pressões inflacionárias (Peru e Uruguai) e da sobrevalorização cambial (Brasil)". Servirá também para conter a dívida pública e para criar um colchão de segurança para emergências.

A relação entre orçamento público, taxa de juros e valorização cambial tem sido raramente apontada nas análises produzidas por economistas estrangeiros. O Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global, distribuído um dia antes, havia chamado a atenção para o atrativo dos juros, mas não havia mostrado a relação entre o desarranjo fiscal, provocado pelo excesso de gastos, e a política monetária.

Planos. O economista chefe do Banco Mundial para a América Latina, Álvaro de La Torre, também comentou o problema fiscal do Brasil. O novo governo, segundo ele, deveria anunciar prontamente seus planos para a gestão das contas públicas. Wall Street e todos os demais centros financeiros, acrescentou, estão esperando esse anúncio.

O baixo desempenho das economias avançadas, com uma recuperação mais lenta que a prevista, é um fator de risco para a América Latina, por causa de seus efeitos nos preços das commodities. Do lado interno, há o perigo do superaquecimento, principalmente se os governos demorarem a retirar os estímulos criados durante a crise.

Segundo o Panorama, a maior parte da América Latina está em rápida recuperação por não ter cometido excessos na fase pré-crise. A convalescença do mundo rico é mais lenta porque os excessos - como o endividamento das famílias americanas - ainda estão sendo digeridos. Mas a recuperação latino-americana tem sido acompanhada de um aumento de importações e de uma deterioração das contas externas. A maior parte dos países tem acumulado déficits na conta corrente do balanço de pagamentos. O relatório dá pouca importância a essa tendência. O déficit brasileiro equivaleu a 1,5% do PIB em 2009, deve chegar a 2,6% neste ano e alcançar 3% em 2011. É a contribuição dada pela região ao reequilíbrio da economia mundial - proporcionalmente bem maior que a da China, ainda superavitária nessa conta.

No último meio século, buracos nas contas externas frequentemente forçaram as economias latino-americanas e pedir socorro ao FMI. Desta vez, os economistas da instituição se mostram mais interessados em assistir à recuperação da economia americana. Segundo Álvaro de la Torre, em cinco anos a América Latina estará em crise, se não cuidar dos fluxos de capital e da valorização do câmbio.