Título: Mantega culpa americanos por guerra cambial
Autor: Chacra, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/10/2010, Economia, p. B4/9

Sobre a política chinesa, de manter a moeda artificialmente desvalorizada, o ministro da Fazenda brasileiro não disse uma única palavra

Em apresentação a investidores em Nova York, o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, criticou duramente o governo americano e culpou os Estados Unidos e outros países desenvolvidos pela falta de um acordo internacional para impedir uma guerra cambial. Ao mesmo tempo, evitou condenar a China por manter artificialmente sua moeda desvalorizada.

Dizendo ser um defensor da flutuação do câmbio em todo o mundo, o ministro disse ter esperança de que os países consigam chegar a um acordo em encontro do G-20 no próximo mês. Mantega, em sintonia com analistas internacionais, afirma que todos os países tendem a perder se não atuarem em conjunto.

"O Fed (o banco central americano) promete uma expansão quantitativa da moeda, despejando recursos na economia. Outras nações avançadas estão fazendo o mesmo. Mas isso não vai reativar as economias. Na verdade, vai apenas desvalorizar o dólar e outras moedas, incluindo a chinesa, que está atrelada à americana", disse o ministro brasileiro em apresentação no Council of the Americas.

Sem conseguir se expressar em inglês e recorrendo a um tradutor, Mantega disse "condenar as ações na área cambial, pois podem prejudicar o comércio exterior. O ideal seria a livre flutuação. Espero poder discutir a questão no G-20. No fim, é uma guerra comercial".

Com a expansão monetária, segundo ele, os dólares serão aplicados nos mercados emergentes, como o Brasil, que terão suas moedas ainda mais valorizadas.

Na avaliação do ministro, não há risco de um duplo mergulho, com a economia em formato de "W", enfrentando nova recessão no curto prazo. "O mais provável é que EUA e União Europeia fiquem em "L", com as economias demorando muito tempo para se recuperar."

Sempre frisando a crise americana, Mantega insistiu no elevado desemprego nos EUA e afirmou que os consumidores do país estão só pagando dívidas.

"Arma secreta". Por enquanto, Mantega disse aos investidores que a única medida do governo brasileiro para conter a valorização do real será o recém implementado IOF sobre aplicações financeiras. Questionado se o governo tem algum outro mecanismo caso a medida fracasse, Mantega afirmou haver "uma arma secreta", sem especificar qual seria essa arma.

Os investidores mostraram-se preocupados com a falta de algumas reformas. Mantega disse que poderia ter sido feito mais. Segundo ele, o ideal seria que a aprovação da reforma tributária, mas a proximidade das eleições impediu que a proposta fosse enviada ao Congresso.

Durante toda a apresentação, o ministro evitou criticar a China, que tem sido duramente condenada pelos EUA e outros países por manter artificialmente a moeda valorizada. Perguntado pelo Estado se a moeda chinesa não seria um problema, ele preferiu voltar a criticar os americanos. "A origem do problema está no baixo nível de demanda nos mercados avançados", apesar de ressaltar que entende os obstáculos políticos enfrentados pela administração de Barack Obama.

O ministro também afirmou que as famílias brasileiras são uma das menos endividadas do mundo. Segundo Mantega, poderia haver mais endividamento na compra de imóveis. Para ele, "não há bolha imobiliária".