Título: Última fase antes de resgate no Chile, revestimento de túnel termina hoje
Autor: Mello, Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/10/2010, Internacional, p. A16
Os técnicos devem concluir hoje às 9 horas (mesmo horário de Brasília) o revestimento do túnel pelo qual serão resgatados os 33 mineiros presos na mina San José desde 5 de agosto. Segundo o ministro das Minas do Chile, Laurence Golborne, serão revestidos apenas os primeiros 90 metros do túnel com tubos de aço.
Com isso, o resgate dos mineiros deve começar amanhã ou quarta-feira, mas pode atrasar ou adiantar, alertou Golborne. Os mineiros serão transportados pela cápsula Fênix, de 4 metros de altura e 54 centímetros de diâmetro, que vai içá-los do refúgio a 680 metros de profundidade até a superfície. "Para cada mineiro transportado, será como subir num elevador da base até o topo do Pão de Açúcar", disse o ministro da Saúde, Jaime Mañalich. Segundo ele, a cápsula vai subir a uma velocidade de cerca de 1 metro por segundo e portanto o trajeto até o topo levará "de 12 a 15 minutos". Antes, porém, os membros da equipe de resgate afirmaram que o içamento demoraria em torno de uma hora - para evitar que a diferença de pressão prejudicasse a saúde dos mineiros. Mañalich previu que os mineiros podem sentir náuseas e ter problemas de pressão ou embolia no trajeto.
Há um grande risco de a cápsula entalar no trajeto. O túnel tem uma inclinação, não é totalmente vertical, nem liso. Há uma folga de apenas 3 centímetros entre a cápsula e a parede do túnel.
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Durante o salvamento, os mineiros vão usar roupas especiais: um macacão verde, feito de tecido respirável, que mantém a temperatura do corpo constante, além de capacete e óculos com lentes que bloqueiam 100% dos raios UV. Como eles ficaram em relativa escuridão por muito tempo, o sol poderia danificar sua visão de forma grave. "Lá embaixo nós simulamos o dia, mas não é muita iluminação. É como um cinema. Aqui é muito mais iluminado", disse Mañalich. Para completar, os mineiros usarão uma cinta, semelhante à usada por pessoas com varizes, na cintura e nas pernas - o objetivo é manter a circulação constante e evitar queda de pressão.
Doze horas antes do resgate, os mineiros iniciarão uma alimentação especial, com dieta líquida enriquecida de minerais, para evitar náuseas durante o translado até a superfície. No instante em que chegarem à superfície, eles serão levados a um hospital de campanha, usando seus óculos especiais. Depois, passarão para um local onde receberão medicamentos e só aí se reunirão com parentes. De lá, são levados de helicóptero para Copiapó, a cidade mais próxima, onde ficarão internados por pelo menos dois dias.
Os mineiros serão divididos em três grupos para o resgate. No segundo grupo de resgatados, os dez mais frágeis, como Mário Gómez, que tem um problema pulmonar, junto com o mineiro que é diabético. No primeiro grupo, de 4 a 6 pessoas, vão os que estão em melhor forma, não engordaram muito, manterão tranquilidade durante o resgate e conseguem operar o mecanismo da cápsula se ele falhar. E, por último, o grupo dos mais fortes, que podem ajudar no resgate e aguentar a ansiedade das 48 horas da operação
Mañalich disse que vários mineiros se voluntariaram para sair por último da mina, "Com isso, quero mostrar que eles mantêm um ânimo admirável de solidariedade e companheirismo", disse o ministro.
O último mineiro que será salvo é Luis Urzúa, 54 anos, o chefe do turno que assumiu o papel de líder. Por ele ser o mais estável e forte do grupo, ele ficará por último. O primeiro a usar a cápsula será um resgatista mineiro e, depois , um resgatista do Exército, que descerão até o refúgio, para coordenar o salvamento.
O mineiro Darío Segovia "está muito contente, mas muito, muito nervoso", disse seu irmão Alberto, depois de conversar com ele. "Ele não quer ser o primeiro, porque tem medo. Ninguém quer ser o primeiro. Imagine, subir 700 metros."