Título: Brasileiro vai às compras em Buenos Aires
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/10/2010, Economia, p. B6

Os turistas consumiram 214% mais nas terras portenhas em setembro de 2010 contra o mesmo mês do ano passado O famoso "deme dos" que nos anos 90 - tempos da conversibilidade econômica da paridade um a um entre o peso e o dólar - os argentinos pronunciavam em todo o continente, desde Búzios até Miami, agora tem uma versão em português, o "me dê dois". A frase está sendo aplicada intensamente em Buenos Aires, cidade que, por seu look europeu, jantares embalados com suculentas carnes e regados com vinho, e - especialmente - seus produtos baratos, tornou-se um ímã para os turistas brasileiros.

Segundo dados da Global Blue, empresa que tem a concessão da devolução do Imposto de Valor Agregado (IVA) das compras feitas pelos turistas estrangeiros na Argentina, os brasileiros estão consumindo de forma crescente em Buenos Aires. Os dados da empresa indicam que em setembro os brasileiros compraram 214% a mais do que no mesmo mês do ano passado.

Do total de compras feitas no país por estrangeiros que usam o sistema de devolução, os brasileiros são responsáveis por 45%. Neste caso, os produtos Made in Argentina mais procurados são as roupas de couro, equivalentes a 23% das compras; roupas para mulheres, 16%; e calçados, 11%. As roupas masculinas ficam em quarto lugar, com 9%. Vinhos e chocolates têm 5% das compras.

Segundo o Instituto Nacional de Promoção Turística (Inprotur), os turistas brasileiros são os que mais gastam na Argentina (em média, por dia, US$ 148,90). Do total de turistas brasileiros, 30,5% hospedam-se em hotéis de uma, duas e três estrelas. Outros 54,3% hospedam-se em hotéis de quatro e cinco estrelas. E outros 7,9% ficam na casa de amigos e parentes.

O ministro do Turismo, Enrique Meyer, anunciou que em 2010 o país receberá um milhão de turistas brasileiros, marca que constituirá um recorde histórico. Em 2009 um total de 500 mil brasileiros visitaram o país.

Point. Os brasileiros também estão alterando a tradicional presença argentina em Punta del Este, balneário uruguaio que foi "point" argentino na região há mais de meio século. Segundo o Centro de Hotéis de Punta del Este, do total de turistas que foram neste fim de semana a Punta del Este, 40% eram brasileiros e 35%, argentinos. Dos restantes, 25% eram uruguaios. Do total de brasileiros, 70% eram do Rio Grande do Sul.

No entanto, ao longo do ano, o predomínio ainda é de argentinos. Estes, que eram 80% do total há meia década, atualmente constituem 60%. Os brasileiros, desde 2005, cresceram de 15% para 25% do total.

O presidente do Centro, Fernando Massa, afirma que esse fluxo "marca uma tendência que está se afirmando." Massa sustenta que os brasileiros estão visitando Punta del Este não somente nos feriadões, mas de forma persistente ao longo do ano.

"Os brasileiros são geniais", exclama Pedro Mejías, vendedor de uma pequena loja de música na rua Guido. "Eles querem CDs de tango eletrônico e de Carlos Gardel, pois aqui custam de 35 pesos (US$ 8,16) para cima, mais baratos do que no Brasil", explica ao Estado. Depois, sorrindo, acrescenta: "volta e meia aparece algum brasileiro que pede CDs da Evita Perón. Aí tenho de explicar que Evita não era cantora e que "Não chores por mim Argentina" não é tango nem canção argentina..."

O taxista Juan Pablo Viggiano ressalta o predomínio de brasileiros entre os passageiros estrangeiros que transporta: "Do total, devem ser uns 80%." Enquanto trafega pela avenida de Mayo, em pleno centro, Juan Pablo afirma que os brasileiros nem bem descem do avião e querem logo ver outlets de roupa, shows de tango e restaurantes de carne argentina.

Em uma pizzaria localizada ao lado do cemitério da Recoleta, "point" inexorável de visita dos turistas, o garçom Pedro Gesualdi avaliou para o Estado o consumo gastronômico dos brasileiros: "Eles adoram empanadas. Principalmente as de carne. E as roquefort, que para eles são uma novidade." Ao lado, sua colega Johanna Romero acrescenta: "Mas são meio complicados para deixar gorjetas. A gente precisa explicar que, na Argentina, os 10% não estão incluídos."

"São muito simpáticos. Mas puxa! Como insistem com os "descontchinhos"!", reclama, imitando o sotaque carioca, Shirley, a atendente de um quiosque a poucos metros da entrada do cemitério da Recoleta. "Parece que lá estão acostumados a isso. Mas aqui a gente não pode fazer descontos para o caso que alguém leve oito ou nove alfajores. Os preços na Argentina são fixos", explica a atendente.