Título: A aposta de alto risco que salvou a empresa na crise
Autor: Friedlander, David
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2010, Negócios, p. N3

Para entender a estratégia marítima da Vale, é preciso voltar um pouco no tempo e recordar o pico da crise econômica mundial, no começo do ano passado. Naquele momento, entre as grandes siderúrgicas internacionais, apenas as chinesas ainda compravam alguma coisa. Havia, portanto, minério de ferro sobrando no mundo. Para piorar a situação da Vale, cada vez que os chineses faziam um pedido, os concorrentes da Austrália e da Índia saltavam na frente e laçavam a encomenda. A vantagem era geográfica: enquanto a mineradora brasileira precisa de 45 dias para atingir a China, australianos e indianos chegam em apenas 15 dias. Foi nesse ponto que a Vale fez uma aposta de alto risco. Como os pedidos não chegavam, a empresa alugou cerca de 100 navios e despachou 25 milhões de toneladas de minério para a China, na tentativa de vender o produto no porto, pelo melhor preço possível. "Mandamos aquela montanha de minério sem ter certeza de que conseguiríamos vender. Era isso ou ficar sem vender. E pior, perder mercado para os australianos", afirma Roger Agnelli, presidente da Vale.

Como os navios estavam todos na Ásia, parados por falta de serviço, a mineradora ainda teve de esperar 45 dias para que eles chegassem ao Brasil para buscar seu produto. "A estratégia deu certo, conseguimos vender tudo, mas o episódio mudou muita coisa", afirma José Carlos Martins, diretor-executivo da Vale. "Para levar nosso produto ao cliente não basta tirar o minério do solo. Precisamos ter ferrovia, porto e navio. Os dois primeiros a gente controlava, os navios, não. Agora, teremos o controle completo de nossa cadeia", diz o executivo.