Título: Estrangeiros avançam em quase todos os setores
Autor: Landim, Raquel
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/10/2010, Economia, p. B1
Segundo a Fiesp, a participação dos produtos importados no consumo cresceu em 31 de 33 segmentos industriais
A concorrência com os produtos importados não é mais uma dor de cabeça apenas de segmentos intensivos em mão de obra, como têxteis ou calçados. As importações ganharam espaço em praticamente todos os setores da economia.
No segundo trimestre em relação a igual período de 2009, a participação dos produtos estrangeiros no consumo doméstico cresceu em 31 de 33 setores da economia, revela um estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
A invasão de importados provocada pelo câmbio forte e pela expansão do mercado doméstico começa a incomodar segmentos que até pouco tempo estavam protegidos por sua alta competitividade ou por tarifas de importação significativas.
Na siderurgia, a fatia dos importados no consumo subiu de 9,8% para 15% no último ano, conforme a Fiesp. Pelos cálculos do Instituto Aço Brasil, já chegou ao recorde de 20%.
Antes da crise, importar aço não compensava por causa da expressiva produção nacional e do custo logístico. Hoje três fatores impulsionam a compra de aço no exterior: câmbio valorizado, incentivos tributários nos portos, e o excesso de produção.
"Com a economia mundial ainda em dificuldade, a América Latina hoje é um Eldorado. Estamos vivendo uma guerra comercial. Se não for tomada alguma medida, podemos chegar a desindustrialização", disse Marco Polo de Melo Lopes, presidente-executivo do IBS.
O setor está pressionando o governo a aplicar uma sobretaxa contra a importação de aço. Usiminas e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) já fizeram duas solicitações de investigações de dumping, que é importar abaixo do preço de custo.
Carros. Em 2003, carros, caminhões e ônibus importados respondiam por 7% das vendas no Brasil. No segundo trimestre deste ano, chegou a 17,8%. Pelas projeções da Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea), o Brasil vai importar 650 mil veículos este ano e o déficit do complexo automotivo, que inclui as autopeças, deve chegar a US$ 5,7 bilhões.
O Brasil cobra uma sobretaxa de 35% na importação de carros, o máximo permitido ao País pela Organização Mundial de Comércio (OMC). Não pagam a tarifa carros vindos do Mercosul e do México por conta dos acordos fechados pelo Brasil.
Antes da crise, só valia a pena importar de outras origens veículos de alto luxo. Hoje isso mudou. Os asiáticos, com destaque para a Coreia, já respondem por 26,5% do total importado. Chama a atenção o crescimento da coreana Hyundai no mercado brasileiro. O próximo desafio serão os fabricantes chineses.
Eletrônicos. A fatia dos importados também cresce em setores tradicionalmente deficitários. Hoje metade dos eletrônicos consumidos no País vem de fora, contra com 40% no segundo trimestre de 2009 e 23% em 2003.
Nos produtos químicos, a parcela dos importados no consumo saiu de 23,8% para 28,1% em um ano. Nos farmacêuticos, passou de 22,1% para 29,5%. "Uma parte disso é provocada pelo câmbio, mas não é desindustrialização, porque a produção também cresce", disse Renato Endres, diretor de comércio exterior da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).