Título: EUA preparam enxurrada de dólares
Autor: Dantas, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/10/2010, Economia, p. B4
Decisão, aliada à resistência da China em mexer na cotação do yuan, deve valorizar ainda mais as moedas dos países emergentes
Os Estados Unidos resolveram partir para o tudo ou nada para relançar a sua combalida economia, com o Federal Reserve (Fed, banco central americano) disposto a inundar o país de dólares. Com a atual interligação financeira global, o resultado é que o resto do mundo terá de pagar a conta, com grande valorização das moedas em geral ante o dólar.
Mas se fosse só isso, não seria tão mal. A dor de cabeça adicional é que a China só permite uma valorização mínima do yuan em relação ao dólar. Dessa forma, países emergentes como o Brasil veem suas moedas se valorizar não só ante a americana, mas também contra a da China, o mais temível competidor em produtos industriais.
"O Fed está indo ao limite, e vai colocar todo o dinheiro na rua que for necessário para estimular a economia - isso tem um grande impacto", diz Gino Olivares, economista da Brookfield Gestão de Ativos, no Rio.
Os primeiros sinais mais claros de que o BC americano não estava mais para brincadeira foram emitidos no final de agosto, na célebre conferência anual de Jackson Hole, no Wyoming. Foi lá que Ben Bernanke, chairman do Fed, deixou claro que seria retomado o chamado "afrouxamento quantitativo" da política monetária.
Quando os juros de curtíssimo prazo já são de quase zero, como ocorre hoje nos Estados Unidos, há perda de eficácia do instrumento clássico dos BCs, que é justamente o de mexer nesse mercado, reduzindo a chamada taxa básica. Afinal, não dá para derrubar os juros curtíssimos para menos de zero.
A solução é tentar atuar nos juros de longo prazo, comprando títulos do Tesouro americano, como o de dez anos, em poder do mercado - o chamado afrouxamento quantitativo. Uma avalanche de dólares pode ser injetada na economia por esse canal, com o objetivo de derrubar os juros em toda a "curva" dos diferentes prazos.
Além disso, na minuta da última reunião de política monetária do Fed, na semana passada, houve sinais claros de que o BC americano considera a hipótese de atuar para aumentar as expectativas inflacionárias, o que é considerado uma saída para situações de estagnação e risco de deflação, como a que os Estados Unidos vivem agora.
Uma ideia mencionada na ata seria a de ter uma meta para o nível de preços. Assim, se a inflação foi de 1%, para uma meta de 2%, no ano seguinte ela teria de ser de 3%, para compensar. Até agora, os programas de afrouxamento quantitativo tiveram limites em termos de quantas centenas de bilhões de dólares seriam gastos. Se o foco passasse para uma meta de nível de preços, o único limite seria o de encharcar a economia de dinheiro até que a inflação empinasse de novo.
Os mercados americanos e globais, é claro, reagiram antecipadamente a todas essas ideias circulando na cúpula do BC mais poderoso do mundo e à expectativa de que algum tipo de afrouxamento quantitativo já pode começar na próxima reunião do Fed, no início de novembro. Os juros caíram nos Estados Unidos e as moedas que flutuam começaram a disparar ante o dólar.
Os diversos países do mundo estão reagindo à desvalorização do dólar com ampliação do que estão habituados a fazer, ou a introdução de novas armas. A China bateu recorde de acumulação de reservas, US$ 194 bilhões em três meses, levando o total para US$ 2,65 trilhões. O país vem permitindo uma mínima valorização do yuan ante o dólar, mas muito menos do que pedem os clamores do resto do mundo. No Brasil, a vigorosa compra de dólares e o IOF de 4% sobre aplicações de renda fixa de estrangeiros tiveram muito pouco efeito, o dólar caiu para R$ 1,665, e novas medidas são aguardadas.