Título: O mundo e a geração mais velha
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/10/2010, Economia, p. B15

A alta da expectativa de vida em todos os países, desenvolvidos ou emergentes, obriga os governos a abordar o problema rapidamente

O aumento da expectativa de vida em todo o mundo já não é uma perspectiva problemática e distante no horizonte. O aumento descontrolado do custo das aposentadorias em alguns países europeus é fator importante na crise da dívida que, este ano, abalou a Zona do Euro.

Nos Estados Unidos, os baby boomers da primeira geração terão direito, no próximo ano, aos benefícios da Seguridade Social e da Assistência Médica para os idosos (Medicare), dando início a uma espiral de custos de duas décadas, na qual se prevê que os gastos do governo dobrarão como parcela do Produto Interno Bruto (PIB).

Na China, onde o crescente ônus dos dependentes idosos ainda recai na maior parte sobre as famílias, o aumento da expectativa de vida está dando origem ao chamado "problema 4-2-1" - um filho cuidando de dois pais e de quatro avós.

A transformação demográfica que se observa atualmente no mundo deverá determinar desde a psicologia das empresas e a produtividade da força de trabalho até o rumo dos fluxos globais de capital. O que é mais grave: poderá fazer com que comece a ser contestada a capacidade das sociedades de proporcionar um padrão de vida digno aos idosos sem impor uma carga excessiva aos jovens.

Quais são os países mais preparados para enfrentar o problema? E quais os menos preparados? O Índice Global de Adequação para o Envelhecimento (GAP, na sigla em inglês), do qual somos os autores e será divulgado esta semana pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington, oferece uma avaliação quantitativa do progresso observado em todo o mundo para os diversos países se prepararem para o número cada vez maior de idosos, e particularmente, para as dimensões do problema da dependência destes cidadãos.

O Índice GAP consiste de dois subíndices separados - índice de sustentabilidade fiscal e adequação da renda, e cobre 20 países, entre desenvolvidos e emergentes. O índice tem uma notícia boa e uma má. A má é que são poucos os países em melhor posição no ranking em termos de sustentabilidade e de adequação.

Diferenças. Três dos sete países de maior ranking no índice de sustentabilidade fiscal (México, China e Rússia) estão entre os sete de menor ranking no de adequação da renda. Quatro dos sete países de maior ranking no índice de adequação da renda (Holanda, Brasil, Alemanha e Grã-Bretanha) estão entre os sete países de menor ranking no de sustentabilidade fiscal.

Dois países - França e Itália - receberam notas que dão a ambos a menor classificação em cada índice. Ambos aprovaram leis que preveem amplos cortes da generosidade dos seus sistemas públicos de aposentadorias, ameaçando profundamente o padrão de vida dos idosos.

Entretanto, apesar dos cortes, os sistemas continuam tão dispendiosos que imporão aos jovens um ônus enorme e cada vez maior.

A boa notícia é que há exceções. A Austrália, que combina um piso de baixo custo com recursos comprovados do Estado para os idosos pobres a um amplo sistema privado de pensões obrigatório, teve um rating muito elevado em ambos os índices. O mesmo ocorre com o Chile, que adotou uma combinação semelhante de políticas referentes à aposentadoria.

Vários outros países estão claramente caminhando na direção correta. Como a França e a Itália, a Alemanha e a Suécia resolveram reduzir profundamente a futura generosidade do seu sistema estatal de aposentadorias.

Mas, ao contrário da França e da Itália, deverão preencher o consequente rombo na renda dos idosos fortalecendo os fundos de pensão e elevando a idade para a aposentadoria.

Embora suas cargas fiscais continuem altas, foram bem mais reduzidas sem prejudicar a adequação.

Esse contraste contém uma lição fundamental. A maioria das economias desenvolvidas terá de reduzir consideravelmente os fundos estatais para aposentadoria a fim de evitar uma catástrofe fiscal. O mesmo deverá ocorrer em algumas importantes economias em desenvolvimento, como Brasil e Coreia do Sul.

Mas, a não ser que a reforma garanta também uma adequação da renda aos idosos, as reduções não se sustentarão em termos políticos.

Soluções. Economizar mais e trabalhar por mais tempo são as condições cruciais de toda estratégia de reforma, porque proporcionam os maiores recursos - na realidade, os únicos recursos - destinados a preservar o padrão de vida dos aposentados sem impor um novo imposto ou um ônus familiar aos jovens.

Enquanto a maior parte do mundo ainda está se recuperando da crise econômica global que começou em 2008, muitos líderes políticos poderão chegar à conclusão de que este não é o momento mais propício para tratar do problema global do aumento da expectativa de vida. Seria um erro.

De fato, a crise econômica faz com que seja ainda mais urgente uma ação tempestiva, porque reduziu drasticamente os recursos fiscais de que a maioria dos países necessita para fazer frente aos custos dos benefícios dos aposentados, e ao mesmo tempo contribuiu para aumentar a vulnerabilidade de muitos idosos.

Há também a questão crucial da confiança. O público e os mercados temem que os governos tenham perdido o controle do seu futuro fiscal.

Nesse sentido, adotar as medidas mais confiáveis para tratar da questão do aumento da expectativa de vida a longo prazo também poderá ser necessário para garantir uma recuperação no curto prazo.

Richard Jackson, Neil Howe e Keisuke Nakashima são, respectivamente, pesquisador sênior, pesquisador associado e membro do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Tradução: Anna Capovilla