Título: Governo não persegue nenhuma meta para a taxa de câmbio, diz BC
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/10/2010, Economia, p. B1
Instituição diz que compra de dólares - e consequente acúmulo de reservas - tem como objetivo aumentar resistência do País a crises
Embora grande parte dos analistas avalie que o acúmulo de reservas decorra hoje da estratégia do governo de frear a alta do real, o Banco Central (BC) afirma não compra dólares - e, por tabela, engorda as reservas - com tal finalidade.
"A atuação do Banco Central não busca interferir na trajetória da taxa de câmbio nem persegue nenhuma meta para a taxa, conforme tem sido a política implementada com sucesso desde janeiro de 2004", diz a instituição em nota enviada ao Estado.
Os principais objetivos, segundo o BC, são: (1) a acumulação de reservas visando a aumentar a resistência do País a crises, como demonstrado em 2008; e (2) absorver excessos nos níveis de liquidez dos mercados cambiais ou enfrentar crises de liquidez como na última crise.
Não é só a motivação do BC para atuar no câmbio que provoca divergência no mercado. A forma de fazê-lo também causa polêmica. Alguns especialistas têm defendido que a autoridade monetária volte a utilizar um instrumento chamado de swap cambial reverso. Trata-se de um papel negociado no mercado futuro que, na prática, tem como efeito a compra de dólares.
Um dos que defendem a alternativa é o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore. "O valor do dólar é definido com base nos mercados à vista e futuro. Hoje, o BC só atua em um deles", observa. Pastore explica que, dessa forma, o governo atrai ainda mais capitais especulativos. O argumento é o de que a taxa de juro em dólar no Brasil fica mais "gorda" com esse tipo de atuação.
O professor da PUC-SP Antônio Corrêa de Lacerda também faz alguns reparos à atuação da autoridade monetária. "O BC deveria ser menos previsível em suas intervenções no mercado cambial", afirma. Ele é um dos que acreditam que a acumulação de reservas já está chegando "a um ponto de exagero".
O sócio da Tendências Consultoria Nathan Blanche é mais direto. "Não há mais benefícios em continuar acumulando reservas", afirma. "De um ano para cá, o BC comprou mais de US$ 40 bilhões e a percepção de risco do Brasil (dada por um tipo de seguro chamado CDS - ver gráfico) não mudou", argumenta.
Tio Patinhas. O professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) Simão Silber acredita, como Pastore, que não há outra saída para o governo no momento. "O BC não compra dólar porque quer dar uma de Tio Patinhas", ironiza. "O BC não vai deixar o câmbio desmanchar. Então, esqueça-se o custo (da acumulação de reservas)."
Silber refere-se ao efeito negativo que o real forte provoca nas exportações brasileiras, sobretudo de bens manufaturados, e também nas importações, que tendem a crescer com a moeda valorizada (neste ano, por exemplo, as importações avançam 50% na comparação com 2009). A deterioração da balança comercial, por sua vez, faz piorar as contas externas em geral, aumentando a vulnerabilidade do País.
Diretor do BC quando a instituição iniciou, em 2004, a acumulação de reservas, o economista-chefe do Banco Santander, Alexandre Schwartsman, evita ser assertivo sobre o assunto.
Mas diz ter a "impressão de que (a estratégia) não está mais valendo a pena". Em primeiro lugar, porque avalia que o objetivo de garantir um seguro anticrise já foi atingido. Em segundo, porque acredita que a forma como o BC implementa a política não é a mais adequada.
Ele refere-se ao fato de o governo fazer o que se chama de "esterelização". Economês à parte, significa, na prática, que a forma de o BC atuar valoriza o câmbio real (descontada a inflação). "Muita gente de respeito discorda. Mas é assim que vejo."