Título: Gasto público não gera inflação, diz ministro
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/10/2010, Economia, p. B1

"Temos dos melhores resultados fiscais do mundo. Brasil vai ter um déficit nominal menor que o dos EUA", disse

Na contramão das sugestões da maioria dos economistas do mercado financeiro, que defendem um maior aperto fiscal para ajudar a resolver o problema cambial brasileiro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que seria um equivoco reduzir os gastos públicos na tentativa de baixar mais rapidamente a taxa de juros brasileira.

Em entrevista ao canal Globo News, Mantega disse que o gasto público no Brasil não é inflacionário. Ele contestou as críticas dos analistas econômicos e afirmou que o País tem um resultado fiscal "bom", sinalizando que um aumento do superávit primário das contas do setor público não está na lista de medidas que o governo prepara para atacar o problema cambial. Com um dos juros mais altos do mundo, o Brasil, que tem uma economia considerada segura, acabou se tornando um verdadeiro "paraíso" para os investidores estrangeiros que buscam alta rentabilidade.

"É um grande equívoco. Não tem nada a ver A com B. Nós estamos com um dos melhores resultados fiscais do mundo. Hoje, o Brasil vai ter um déficit nominal menor que o dos Estados Unidos, da Alemanha, da China e de vários países", ponderou. O raciocínio por trás das declarações do ministro é de que o ajuste fiscal é um mecanismo de médio prazo e o problema cambial, na visão do governo, é de curto prazo.

De janeiro a agosto de 2010 as despesas do governo central cresceram 17,2% ante igual período do ano passado.

Para o ministro, a taxa de juros mais alta no Brasil se deve "exclusivamente à inflação e não ao gasto público". Mantega disse que o Brasil teve que aumentar o gasto público, na época da crise, para estimular a economia e a retomada do crescimento. "Se a inflação é baixa, e está sob controle, significa que o gasto público não é excessivo. Ele está regulado. Não faz sentido dizer que temos que reduzir o gasto público para reduzir a taxa de juros", insistiu o ministro na sua tese.

Na análise do nível da taxa de juros, Mantega disse que é preciso "olhar" a inflação. E se a inflação estiver sob controle, a taxa de juros poderá continuar caindo. A reportagem da Globo News questionou o ministro se este não seria o momento de enfrentar de forma mais incisiva o problema da taxa de juros elevada, nesse cenário de valorização do real. Mantega respondeu: "as taxas de juros mais elevadas aqui ajudam a atrair os capitais. Agora essa é a política do BC", disse ele, numa alfinetada discreta na autoridade monetária.

O ministro também defendeu a política de acumulação de reservas internacionais, por meio de compra de dólares no mercado à vista. Segundo ele, o Brasil caminha rapidamente para ter um volume US$ 300 bilhões.