Título: Maior saldo comercial obtido pelos Estados Unidos agora vem do Brasil
Autor: Landim, Raquel
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/10/2010, Economia, p. B1

O Brasil, que tinha superávit com os EUA até 2008, é um dos únicos países onde os americanos conseguem melhorar seus resultados comerciais

Com exceção de Hong Kong, que é um ponto de distribuição de mercadorias para toda a Ásia, o Brasil é hoje o parceiro que garante o maior superávit comercial dos Estados Unidos. O posto é disputado com a Austrália, mas, nos últimos dois meses, o País conquistou a liderança.

Dados divulgados ontem pelo Departamento de Comércio dos EUA mostram um saldo de US$ 1,3 bilhão nas trocas com o Brasil em agosto, acima do US$ 1,02 bilhão com a Austrália. No acumulado do ano, o superávit dos americanos com os brasileiros chega a US$ 7,2 bilhões - mais que o dobro dos US$ 3,4 bilhões de janeiro a agosto de 2009.

Por conta de frete e impostos, as estatísticas são diferentes do que as divulgadas pelo governo brasileiro. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do ministério do Desenvolvimento, o déficit do Brasil com os EUA ficou em US$ 5,74 bilhões de janeiro a setembro.

O Brasil é um dos poucos países, portanto, com os quais os EUA conseguem melhorar seus resultados comerciais e repassar uma parcela do ajuste que sua economia precisa para sair da crise. As exportações americanas para o Brasil cresceram 41% de janeiro a agosto, enquanto as importações avançaram 23%.

"Se um país quer superávit, o melhor alvo hoje é o mercado brasileiro", diz Fernando Montero, da Corretora Convenção. Segundo o economista, o País reúne as condições para importar mais: é um dos poucos que cresce e sua moeda se valorizou. Desde o início do ano, o real brasileiro e o dólar australiano subiram, respectivamente, 5,08% e 10,7% em relação ao dólar americano.

"O Brasil está pagando a conta do ajuste global, porque seu superávit encolheu e caminha para um déficit. É uma tendência inevitável", disse José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.

Depois de anos de superávits, o Brasil voltou a ter déficit com os EUA em 2009. Além da crise, fatores estruturais influenciaram o resultado. O Brasil se destaca como exportador de commodities e os EUA não são clientes, mas concorrentes.

Os dados americanos demonstram que os EUA só registram saldos significativos com Brasil e Austrália (moedas que seguem os preços das commodities) ou com polos de distribuição na Europa (Holanda e Bélgica) e na Ásia (Hong Kong e Cingapura).

Frustração. O presidente Barack Obama anunciou a intenção de dobrar as exportações americanas em cinco anos para ajudar a tirar a economia da estagnação. Mas seu plano tem sido frustrado pela lenta recuperação da economia global e pelo yuan desvalorizado. Ontem, o Departamento de Comércio informou que o déficit comercial americano em bens e serviços subiu de US$ 42,58 bilhões em julho para US$ 46,35 bilhões em agosto. No acumulado do ano, o rombo chega a US$ 494,8 bilhões.

Em agosto, o déficit dos EUA com a China chegou a US$ 28 bilhões - um recorde. A economia chinesa cresce, mas o câmbio funciona como uma barreira contra a importação. A pressão para que os chineses valorizem sua moeda deve aumentar até a reunião do G-20 em novembro.

No entanto, os EUA também não conseguem melhorar seus resultados comerciais com Japão ou União Europeia. O iene foi a moeda que mais se valorizou em relação ao dólar este ano, mas essas economias ainda crescem pouco.