Título: State Grid, da China, quer parceria com Eletrobras
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/10/2010, Economia, p. B6
Depois de comprar linhas de transmissão no Brasil, a State Grid negocia com a [br]Eletrobrás para participar dos próximos leilões para a construção de hidrelétricas
A estatal chinesa State Grid negocia com a Eletrobrás a realização de parceria para participação em leilões de geração de eletricidade no Brasil, disse ontem em Pequim o diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Nelson Hubner. A companhia já colocou um pé no Brasil neste ano com a compra de sete linhas de transmissão de energia, por US$ 1,73 bilhão.
Segundo Hubner essa aquisição foi um teste para a State Grid conhecer o mercado brasileiro, o funcionamento da burocracia e a regulação. "Na carta de intenções que entregaram à Aneel, eles disseram que pretendem permanecer no Brasil no longo prazo." Do lado brasileiro, existe o interesse de atrair o capital chinês para elevar a capacidade de investimento no setor e aumentar a concorrência no fornecimento de equipamentos como grandes turbinas, que hoje são compradas principalmente de fabricantes europeus.
O diretor-geral da Aneel sugeriu aos chineses que eles se associem a empresas nacionais para produção desses produtos no Brasil e citou o caso da catarinense Weg como forte candidata a competir nesse segmento.
"Queremos que eles produzam os equipamentos no Brasil", afirmou. Mas ele ressaltou que não há interesse em "ficar na mão dos chineses" para compra de determinadas tecnologias.
Hubner desembarcou na China no sábado e se reuniu ontem com o ministro da Administração Nacional de Energia, Zhang Guobao, que acabou explicitando o interesse dos chineses no setor de geração do Brasil. Ele disse a Hubner que a State Grid poderia participar do leilão da usina de Belo Monte, que foi realizado em abril.
O brasileiro disse ao ministro que o consórcio responsável pelo projeto já havia sido escolhido, mas que outras licitações estão previstas para os próximos meses. A primeira, que ocorrerá ainda em 2010, será da usina de Teles Pires, próxima da divisa de Mato Grosso e Pará.
Como Belo Monte - e a maioria das hidrelétricas planejadas para os próximos anos - Tele Pires está a cerca de 2.000 km de distância dos centros consumidores do Sudeste do Brasil, o que exigirá longas linhas de transmissão de eletricidade.
É nessa área que os chineses têm vantagem competitiva em relação ao restante do mundo. Segundo Hubner, a State Grid é a única empresa que possui a tecnologia de construção de linhas de transmissão com tensão de 1.000 kV, o que reduz os custos da construção das redes de usinas que estão localizadas a pelo menos 1.500 quilômetros dos consumidores. No Brasil, a maioria das linhas é de 500 kV.
No fim de semana, Hubner visitou redes de transmissão de 800 kV nas proximidades de Xangai e hoje conhecerá redes de 1.000 kV na província de Shanxi, ao sudoeste de Pequim.
Leilões abertos. Segundo Hubner, a Aneel discute a possibilidade de que os leilões de geração sejam mais abertos em relação às especificações para as linhas de transmissão. Atualmente, o edital diz qual deve ser a tensão das redes. A ideia é que no futuro se defina apenas a quantidade de energia a ser transmitida e a distância das usinas até os centros consumidores. Caberá aos consórcios definir a tensão das redes e ganhará o que oferecer o menor preço no conjunto.
Nos encontros com os chineses, Huber também tenta explicar o papel do órgão regulador no Brasil, tarefa nada fácil em um país onde o Estado tem presença e poder absoluto no setor elétrico.
O mais difícil é convencê-los de que não basta se associar à estatal para ganhar os leilões. É preciso competir com outros grupos e disputar cada projeto.
O diretor-geral da Aneel disse que a entrada no Brasil de fornecedores chineses ajudará a reduzir o domínio dos europeus nesse mercado. Hubner lembrou que a concentração de fabricantes ameaçou a concorrência nos leilões das usinas de Santo Antônio e Jirau, realizados em 2007 e 2008, respectivamente.
Todas as grandes fabricantes fecharam acordos de exclusividade com o consórcio liderado pela Odebrecht, o que impedia a formação de grupos concorrentes. A Aneel teve que recorrer aos órgãos de defesa da concorrência e ao Judiciário para obter a anulação do acordo e a garantia de fornecimento dos produtos a outros consórcios.