Título: Fundo Soberano tem 80% na Petrobrás
Autor: Pinheiro, Vinícius
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/10/2010, Economia, p. B8
Somado aos recursos aplicados na oferta do Banco do Brasil, fundo tem hoje mais de 90% da carteira em ações de estatais federais
Criado originalmente com o objetivo de atenuar os efeitos de ciclos econômicos e fomentar projetos de interesse do País no exterior, o Fundo Soberano Brasileiro (FSB) passou a concentrar 80% de todo o patrimônio, de R$ 18 bilhões, em ações da Petrobrás. Contando com os recursos aplicados na oferta do Banco do Brasil, realizada em julho deste ano, o fundo hoje conta com mais de 90% da carteira em ações de estatais federais. Marcos de Paula/AE Marcos de Paula/AE Risco. Com aplicação na Petrobrás, Fundo Soberano já perdeu R$ 730 nilhões este mês
Na análise de especialistas, a estratégia do governo contraria o preceito básico dos investimentos de "nunca colocar todos os ovos em uma cesta só". Entre segunda e quinta-feira, os papéis ordinários (ON) da estatal, que respondem por 56,5% do total de recursos do fundo, acumulam queda de 7,5%. Com a oscilação das ações, o fundo perdeu aproximadamente R$ 730 milhões desde o início do mês. Do ponto de vista de gestão dos recursos, a concentração eleva o risco da carteira. A diversificação se presta justamente a evitar que a oscilação de um único ativo comprometa todo o patrimônio.
Criado em 2008, o Fundo Soberano foi capitalizado com títulos públicos originários de uma reserva fiscal. Após a compra dos papéis da Petrobrás, porém, praticamente se esgotaram os recursos para investimentos, até mesmo para a atuação no mercado de câmbio, uma das intenções do governo. Os dados da carteira, referentes ao fim de setembro, mostram que o fundo acabou não sendo usado para conter o excesso de dólares que entraram por causa da oferta da Petrobrás.
Para Felipe Salto, economista da consultoria Tendências, ao concentrar o portfólio em ações de estatais, o Fundo Soberano até o momento não cumpriu sua função de fato e serviu apenas para executar a estratégia do governo de ampliar a presença do Estado na economia. Ao final da capitalização, o governo ficou com 49% do capital da companhia (incluindo União, Fundo Soberano e BNDES), ante uma fatia anterior de 39,8%.
Ele avalia que, apesar do impacto neutro no curto prazo, já que a compra das ações da Petrobrás e do BB foi feita com sobra de recursos, existe risco fiscal caso o governo venha a se endividar mais para dar manter essa política. Salto considera, porém, legítimo o uso do fundo para conter a valorização do real. "Em vários países o Ministério da Fazenda possui instrumentos para atuar no mercado de câmbio."
Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, os recursos do fundo deveriam ser usados para financiar os projetos de internacionalização das empresas brasileiras - estatais ou não - a partir da compra de dólares no mercado. "Essa seria uma forma de manter os recursos fora do País e ajudaria as companhias brasileiras a ampliar a capacidade de competir no mercado global", afirma.
Transparência. Questionamentos sobre a gestão à parte, a transparência na operação do fundo é vista como positiva por especialistas. "Só podemos criticar a concentração da carteira porque esses dados estão disponíveis e são públicos", diz o consultor de investimentos Marcelo d"Agosto. As informações sobre o fundo fiscal de investimento e estabilização (FFIE) - cujo único cotista é o Fundo Soberano - estão disponíveis diariamente na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), enquanto a carteira é atualizada mês a mês.
D"Agosto avalia que o governo deveria estabelecer de forma clara os objetivos e a atuação do fundo, assim como acontece em outros países que possuem instrumentos semelhantes, a fim de evitar equívocos ocorridos no passado. Ele lembra do Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS), criado para cobrir saldos residuais de mutuários ao fim do prazo do financiamento imobiliário, que acabou se tornando um grande esqueleto, com passivo de R$ 66,4 bilhões no fim de 2001, ante um ativo de apenas de R$ 3,8 bilhões.
Estrangeiros. No balanço final da capitalização, a Petrobrás confirmou a redução do volume de ações com estrangeiros para 31,4%. Antes, eram 37,8%. / COLABOROU NICOLA PAMPLONA