Título: Indústria reage à agressividade da Europa
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/10/2010, Economia, p. B8

As reclamações da União Europeia contra medidas protecionistas adotadas pelo Brasil repercutiram mal no setor produtivo e devem ter um impacto negativo na negociação UE-Mercosul.

A impressão entre os empresários é de uma Europa "agressiva e arrogante". "Era só o que faltava", desabafou Mário Marconini, diretor de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). "Os europeus sempre dão a entender que o lado deles é mais importante do que o nosso."

As negociações para um acordo de livre comércio entre Mercosul e UE ficaram paradas por seis anos, bloqueadas pelo protecionismo agrícola europeu. O processo só foi retomado em maio e, dez dias atrás, os técnicos acertaram um calendário para as negociações: serão mais quatro reuniões até julho de 2011.

No mundo diplomático, significa um alto comprometimento em avançar. Os especialistas estranharam a crítica aberta da UE ao Brasil e alguns chegam a cogitar uma manobra dos países contrários ao acordo, como a França.

Para Marconini, da Fiesp, as acusações agressivas da Europa dão munição aos setores no Brasil que são contra o acordo e enfraquecem quem é a favor. E o time do contra está cada vez maior.

A posição dos empresários em relação à negociação com a UE mudou completamente. A indústria trocou a postura ofensiva, que cobrava o Itamaraty pela falta de acordos bilaterais, pela cautela. E já enviou uma carta aos ministros.

Essa mudança foi detonada pela crise mundial. O Brasil se tornou um alvo dos exportadores ao redor do mundo, porque seu mercado cresce fortemente e sua moeda se valorizou, enquanto a Europa amarga um crescimento baixo. Os europeus, portanto, têm muito mais interesse atualmente no acordo que o Mercosul.

Representantes da indústria se reúnem hoje com o Itamaraty para discutir as negociações. E o clima não deve ser dos mais amistosos em relação aos europeus.