Título: Estamos em terreno desconhecido
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/11/2010, Economia, p. B1
Para Marcio Garcia, economista da PUC-Rio, as novas medidas de estímulo monetário nos Estados Unidos jogam o país em "território desconhecido", já que não há um número suficidente de experiências passadas para se recorrer como base de comparação. No Brasil, porém, o efeito é bem previsível: mais valorização cambial.Ele acha que os controles de capitais têm efeitos "efêmeros", e recomenda mais aperto fiscal.
Como o sr. analisa as novas medidas? Admitindo-se que estimular a demanda seja a saída adequada, a política fiscal seria mais eficiente porque a política monetária já foi muito utilizada.Já foi feito um afrouxamento de US$ 1,7 trilhão sem muito resultado. Mas política fiscal não tem como fazer porque os Republicanos já não deixavam passar e, agora, com a vitória nas eleições do Congresso, é que não vão deixar mesmo. O Fed (Federal Reserve, banco central americano) tem uma meta de inflação de 2%, só que agora há risco de deflação. Então ele quer aumentar inflação, comprando qualquer coisa que se queira vender, basicamente ativos financeiros, como uma forma de baixar os juros de médio e longo prazo, colocando dinheiro na economia.
Quais são os riscos? Paradoxalmente, são riscos opostos. Há o risco de não dar resultado, e o dinheiro ficar todo parado nos bancos, que o devolvem para o Fed, porque não tem o que fazer com ele. É óbvio que tem vazamentos, que é justamente o que nos preocupa: o pessoal começar a pegar dinheiro lá para colocar em renda fixa no Brasil, valorizando nosso câmbio. O outro risco é de que funcione, a economia retome, mas o Fed não consiga contrair a liquidez em tempo hábil. Aí, em vez de ter só um pouquinho de inflação, que é o desejado, venha muita inflação.
O volume de US$ 600 bilhões é suficiente? É menor do que o realizado anteriormente, mas é muito dinheiro. Espera-se que sim mas, na verdade, estamos em território desconhecido. Não temos a mínima ideia de que como funciona uma economia nessas condições. (John Mainard) Keynes falou sobre isso quando tratou da armadilha de liquidez. Mas nunca se fez isso, a não ser muito pouco, e atrasado, no Japão, depois do estouro da bolha no início da década de 90. O Fed fez recentemente, e está fazendo um pouco mais. Então vamos descobrir se a quantidade é ou não é adequada. A incerteza é enorme.
Qual o efeito para o Brasil? A valorização cambial é inevitável - o (ministro da Fazenda, Guido) Mantega foi muito feliz quando falou da "guerra cambial". Passadas as eleições, com a redução das incertezas, os investidores vão trazer ainda mais dinheiro. E agora todo o mundo emergente, como nós, está pensando em colocar algum tipo de controle de entrada de capitais. Esses controles têm eficácia efêmera. e se esta tendência persistir, vamos sofrer. O que poderia ser feito para melhorar a situação é apertar na parte fiscal, o que melhora a situação do câmbio. Não resolve, mas ajuda, inclusive porque facilita baixar os juros, estimulando também o investimento de que nós precisamos.