Título: Montadoras recuperam, depois de 20 anos, o número de empregados
Autor: Silva, Cleide
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/11/2010, Economia, p. B8
Setor atinge em 2010 o mesmo número de funcionários que tinha em 1990: 136 mil; sindicatos reclamam do aumento das importações
Foram necessários 20 anos para a indústria automobilística brasileira recuperar o nível de emprego e chegar a este mês com 135,3 mil funcionários diretos. Nesse período, o Brasil ganhou 11 novas fábricas e assistiu a uma revolução no método produtivo, com várias de suas atividades repassadas a terceiros e linhas de montagem com mais funcionários indiretos do que diretos.
Na fábrica de caminhões da Volkswagen/MAN em Resende (Rio de Janeiro), apenas 894 trabalhadores são registrados pela montadora e 5 mil são contratados de sete fornecedores de autopeças que atuam no chamado sistema modular de produção.
Em janeiro de1991, as montadoras empregavam 136 mil pessoas. Ao fim daquele ano, eram 124,8 mil e uma produção de 960,2 mil veículos. Neste ano, até outubro, já foram fabricadas 3 milhões de unidades. O número de empregados diretos seria maior não fossem as importações, que este ano devem passar de 600 mil unidades, reclama o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre.
Empregos. "O volume equivale a uma fábrica grande", afirma Nobre. Segundo cálculos feitos pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), se essa frota fosse produzida localmente, seriam gerados mais de 15 mil empregos diretos nas montadoras e 75 mil indiretos em toda a cadeia produtiva. "Estamos gerando empregos em outros países", diz o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Cledorvino Belini.
Cerca de 65% das importações são feitas pelas próprias montadoras, que trazem veículos de luxo das matrizes e modelos complementares da Argentina e do México. Belini costuma justificar que o Brasil tem acordo comercial com esses dois países e também exporta para lá. A contrapartida não existe com veículos trazidos da Ásia, movimento que mais cresce atualmente.
Nobre defende uma política industrial que privilegie a produção local. "Para a montadora, tanto faz produzir aqui ou trazer da matriz, mas o País precisa pensar no seu futuro e fazer aqui produtos de alta tecnologia, em vez de trazer caixas de fora com componentes que apenas são montados aqui", argumenta.
O Brasil é o sexto maior fabricante e o quarto maior mercado consumidor de automóveis. Ná década de 90, cada trabalhador produzia em média oito carros por ano. Hoje, são 29, segundo dados do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. O emprego na montadora é um dos mais cobiçados, pois a média salarial é maior do que em outras áreas.
Terceirização. José Pastore, professor de relações do trabalho da FEA-USP, ressalta que são empregos "de altíssima qualidade, salário bom, alta qualificação, estabilidade e chances de fazer carreira." Ressalta, porém, que o processo de terceirização e avanço tecnológico ocorre em todos os setores e no mundo todo.
Belini lembra que, levando-se em conta a mudança no processo industrial nos últimos anos, a geração de empregos no setor é mais significativa. Um exemplo da própria Fiat, empresa que ele preside, é a instalação, nos arredores da fábrica em Betim (MG), de cerca de 30 fabricantes de autopeças que realizam atividades antes feitas internamente.
O executivo cita a montagem dos bancos. "Antes, recebíamos a carcaça, colocávamos espuma e capa; hoje, os bancos chegam prontos e entram na fábrica na sequência da linha de montagem". A Fiat chegou a empregar 25 mil funcionários. Hoje são 15 mil diretos e mais de 8 mil indiretos, que frequentam a fábrica diariamente em funções de logística, manutenção e limpeza.
Modelo mais ousado de produção foi introduzido no Brasil em 1996, com a inauguração da fábrica modular da Volkswagen Caminhões, hoje MAN. Variações desse processo foram adotados pela GM em Gravataí (RS) e pela Ford em Camaçari (BA).
A Anfavea calcula que montadoras, fornecedores (incluindo de matérias-primas como aço) e concessionários empregam, juntos, perto de 1,5 milhão de pessoas. Incluindo toda a cadeia, que passa por setores como postos de combustível, companhias de seguro, financiadoras etc, o número pode chegar a 5 milhões.
A indústria de autopeças não foi a herdeira direta de muitos postos transferidos das montadoras, que também eliminaram funções com o uso da alta tecnologia e de robôs. O setor empregava 255,6 mil pessoas há 20 anos e hoje tem um quadro com quase 220 mil. O auge do emprego nas autopeças ocorreu em 1989, com 310 mil funcionários.
Paulo Butori, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), cita a sofisticação dos processos produtivos e as importações como justificativas. "Hoje temos uma indústria muito mais moderna e mais produtiva," A produção de veículos em 20 anos cresceu quase quatro vezes, enquanto a mão de obra nas autopeças caiu 14%.