Título: O tigre celta era apenas de papel?
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/11/2010, Economia, p. B14
Após anos de boom econômico, Irlanda ainda vive o drama da recessão e pode enfrentar uma década de estagnação
No porto de Dublin, o vento forte e gelado vindo do norte é um alerta: o inverno está chegando. Trabalhadores e casais que passam pelo local tentam se proteger com seus abrigos. O silêncio impera. Depois de anos vivendo o maior boom de sua história econômica do período de independência, a Irlanda se prepara para um longo inverno. Economistas, cientistas sociais, políticos e sindicatos admitem que o país deve enfrentar uma década de estagnação e, mais grave, deixará como herança toda uma geração perdida.
Por anos, a Irlanda foi o melhor aluno de um sistema que pregava a abertura dos mercados e desregulamentação. Por uma década, teve uma das mais altas taxas de crescimento da Europa, atraiu investimentos de alta tecnologia e passou a ser um respeitado exportador. Hoje, economistas, políticos e meros cidadãos reconhecem que o Tigre Celta, como era chamado, pode ter sido apenas de papel.
O Estado consultou algumas das principais lideranças políticas e econômicas da Irlanda. Para todos, o país caminha para abrir uma década de austeridade, na esperança de evitar a todo o custo sofrer uma intervenção externa como a que ocorreu com a Grécia. Mas o temor de muitos é de que isso acabe gerando uma estagnação da economia por anos.
A Irlanda, ao contrário da maioria dos países europeus, ainda não saiu da recessão. Desde a eclosão da crise em 2008, já perdeu 13% de seu Produto Interno Bruto (PIB). Em 2010, uma nova queda está sendo prevista, ainda que inferior a 1%. Se não bastassem os problemas, a semana foi marcada por um novo temor no mercado de que a Irlanda não conseguiria honras suas dívidas. Dublin rapidamente culpou a Alemanha por ter criado o novo terremoto. Berlim havia dito que o mercado deveria estar pronto para que países simplesmente decretassem calote em algumas dívidas. O risco-país atingiu recorde e Alemanha, Inglaterra e França tiveram de declarar que farão de tudo para ajudar o ex-Tigre.
Mas a constatação de economistas é de que, de fato, a crise é profunda e vai além das percepções e especulações do mercado financeiro. O resgate aos bancos irlandeses foi o mais caro da história, em níveis per capita. Só o Anglo-Irish Bank teria recebido 35 bilhões. No total, os cinco maiores bancos conseguiram 50 bilhões de apenas 4,5 milhões de habitantes. Na prática, o resgate aos bancos significou que o governo destinou a apenas cinco instituições mais de 33% dos recursos que tinha. Para 2010, o déficit público deve chegar a 25%, bem acima da Grécia e oito vezes superior à meta da UE.
Corte de gastos. Assim que a crise explodiu, em 2008, a Irlanda foi o primeiro país europeu a anunciar cortes importantes de seus gastos públicos, antes mesmo das cobranças do mercado. Funcionários públicos tiveram seus salários reduzidos em 14%, benefícios sociais foram reduzidos para desempregados e famílias e impostos aumentaram. Só isso já seria suficiente para cortar os gastos públicos em 7,5%. A medida, ainda que em volume total possa parecer pequena, representa para a Irlanda o equivalente a um corte no orçamento do Reino Unido de 200 bilhões.
Dois anos depois, porém, o país constata que o que fez não foi suficiente, pelo menos na avaliação do mercado. Brian Lenihan, ministro das Finanças, anunciou que o novo corte seria de 15 bilhões, o dobro do previsto para os próximos quatro anos. Isso tudo para trazer o déficit público para menos de 3% até 2014, como exige a Comissão Europeia.
A lei vai a votação no Parlamento no dia 7 de dezembro. No Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais, a avaliação é de que a recuperação de fato será ainda mais difícil no futuro. "Diante dos cortes, estamos refazendo nossos cálculos de crescimento para os próximos anos", admitiu Thomas Connefrey, economista da entidade. O problema, segundo economistas, é que a economia continua em queda, mesmo antes do novo pacote de austeridade. No segundo trimestre, a queda foi de 1,2%.
"A economia real está em um caminho nada bom", disse o presidente do Banco Central, Patrick Honohan. Segundo as projeções do FMI, a economia irlandesa deve fechar 2010 com uma queda de 0,5%, completando o terceiro ano consecutivo de contração. Alan McQuaid, economista da Bloxham, enfatiza que os novos cortes de gastos não vão apenas estancar a demanda privada, como reduzir todos os investimentos do Estado.
Salva-vidas. Por enquanto, o único colete salva-vidas da Irlanda tem sido a exportação, que, na realidade, evita uma depressão. Hoje, mais de 50% da produção industrial irlandesa é enviada para fora do país. "Se não existisse essa base exportadora, a Irlanda provavelmente já teria de ter sido resgatada", confirmou Neil Gibson, economista da Ernst & Young.
"O problema é que o consumo doméstico, que é o que pode nos dar um real crescimento e gerar empregos, não deu qualquer sinal de recuperação até hoje", comentou Connefrey. Segundo ele, os consumidores irlandeses estão relutantes em fazer qualquer gasto e ainda não superaram o choque da crise. Na rádio RTE, por exemplo, um programa foi criado apenas para que a população possa ligar e contar suas histórias de perda de imóveis, de trabalho e seus dramas. O programa, porém, se transformou em um palco da crise irlandesa.
Por trás do mal-estar está o desemprego, que não dá sinais de retrocesso. Os números oficiais apontam para 13,7% de desemprego, três vezes maior que a taxa em meados da década. Mais de 5% da população vive exclusivamente do seguro desemprego, e a projeção é que os problemas continuem pelo menos até 2015.
Segundo a consultoria Kavanagh Fennell, 625 empresas fecharam suas portas em 2010 nos quatro primeiros meses do ano. O número é 25% superior a 2009. "A fragilidade do mercado laboral ainda é evidente" afirmou Reetta Suonperä, economista da Confederação Irlandesa da Indústria.
"Uma geração inteira será perdida se o governo não decidir transformar a questão do desemprego em uma prioridade nacional, e não os bancos", afirmou Mark Fielding, diretor da Associação de Pequenas e Médias Empresas da Irlanda. "Estamos vivendo a pior crise econômica de nossas memórias."
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