Título: Pacote dos EUA será atacado no G-20
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/11/2010, Economia, p. B1

Países europeus, China e Brasil atacam o plano de estímulo à economia americana e prometem levar o questionamento ao encontro de Seul

A injeção de US$ 600 bilhões pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na economia dos Estados Unidos vai contaminar a preparação da cúpula do G-20 (que reúne os países mais ricos e influentes do mundo), na semana que vem em Seul, e promete azedar o clima do encontro.

Os principais parceiros econômicos dos EUA - Europa, China e Brasil - atacaram ontem o plano americano e prometeram levar o assunto ao encontro na Coreia do Sul.

Neste fim de semana, uma reunião entre os presidentes dos principais bancos centrais, na Basileia, promete se tornar o ensaio geral da cúpula. Ben Bernanke, presidente do Fed, está sendo aguardado para explicar por que tomou a decisão, enquanto os demais xerifes das finanças prometem alertar sobre os riscos da medida.

O principal risco é que o derrame de dólares vaze para outras economias, formando bolhas especulativas. O risco é maior em países emergentes, que oferecem mais oportunidades de investimentos e já falam em elevar taxas para conter a entrada do capital especulativo.

"O que foi feito nos EUA mina o espírito de cooperação multilateral que os líderes do G-20 lutaram tão duramente para manter durante a crise", afirmou o ministro das Finanças da África do Sul, Pravin Gordhan.

Ontem, a União Europeia indicou que vai levar à cúpula do G-20 a iniciativa do Fed. França, Reino Unido, Alemanha e Itália trocaram telefonemas sobre o assunto. Os europeus não se conformam como Washington fez o anúncio sem antes seguir o que o G-20 havia definido em outubro: que todas medidas de impacto levariam em conta os riscos para outras economias.

Para o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, a decisão do Fed vai criar "problemas adicionais" para o mundo e não vai resolver o problema americano. "Não é falta de liquidez. Dizer agora "vamos colocar mais recursos" não vai resolver os problemas deles." Ele garante que a própria chanceler alemã, Angela Merkel, levantará a questão no encontro do G-20.

O governo francês afirmou sua "decepção" em relação à atitude unilateral dos EUA. A ministra da Economia, Christine Lagarde, alertou que o euro poderia ser afetado (com forte valorização em relação ao dólar).

Outro país que aproveitou a situação para atacar os americanos foi a China. Pequim criticou a medida e, assim, tenta tirar de si a pressão em relação ao yuan. Americanos, europeus e até brasileiros alegam que a moeda chinesa é manipulada pelo governo para garantir mais exportações e um freio nas importações.

"Se não houver um limite na emissão de moedas globais, como o dólar, uma nova crise será inevitável", alertou Xia Bin, conselheiro do Banco da China, ao jornal Beijing News. "Alguém tem de dar uma explicação. Do contrário, a confiança global na recuperação será afetada."