Título: Europa parte em socorro da Irlanda e dela mesma
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/11/2010, Economia, p. B1

Em 1900, eles eram 100 mil. Hoje não são mais do que 3.200. É o mais belo animal do mundo e seu desaparecimento vai tirar da obra do Eterno uma das suas joias mais terríveis, mais suntuosas. Como não nos alegrarmos com uma conferência mundial de quatro dias em São Petersburgo, na Rússia, destinada a salvar esse felino fabuloso que é o tigre? Entretanto, um tigre de outra espécie, um "tigre econômico", a Irlanda, que há dez anos vinha acumulando proezas a ponto de ser chamado, à imagem de algumas nações asiáticas, de "tigre celta", encontra-se numa situação tão miserável quanto os tigres reais de Bengala ou os tigres imaculados da Sibéria.

Depois de oito dias de pânico, União Europeia, Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE), Inglaterra, Suécia, enfim, todos os "bombeiros" desembarcaram em Dublin, com suas grandes mangueiras para apagar o incêndio, antes que ele se propague para outros "elementos fracos" da Europa, carbonizando todo o sistema monetário.

O remédio é sempre o mesmo: os socorristas vão injetar no país, arruinado pelo enorme déficit de orçamento e a falência de seus bancos, cerca de 100 bilhões. É o melhor método? Não se tem certeza. Mas, na urgência, não é possível adiar a terapia de choque.

Três observações: o governo irlandês de direita, conduzido por Brian Cowen, fez todo o possível para evitar a ajuda. Mas estava encurralado. Não podia mais arcar com um déficit equivalente a 32% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma dívida de quase 100%. A população irlandesa, em compensação, não se resignou. Está furiosa.

Segundo o Irish Times, esse desastre ocorre um século depois de os irlandeses conseguirem sua independência dos britânicos. "Foi para isso que os homens de 1916 morreram?" , indagou o jornal.

E para o grande sindicato TEEU (de técnicos de engenharia e eletricidade), "com essas medidas draconianas que se juntam aos 15 bilhões de economias já feitas nos três orçamentos precedentes, a vida na Irlanda será insuportável".

A Alemanha, que em abril passado fez de tudo para impedir que a União Europeia socorresse a Grécia falida, desta vez batalhou para salvar a Irlanda. Por que essa diferença? Para Angela Merkel, a Grécia tem uma reputação (justificada) de país ocioso e enganador. Enfim, um país do Sul, isso diz tudo! A Irlanda, ao contrário, é um país do Norte, portanto estupendo. Além disso, no caso da Grécia, o egoísmo alemão provocou muito ressentimento em toda Europa. Angela Merkel usa agora a Irlanda para refazer a reputação perdida. (É bom acrescentar que os bancos alemães detêm 100 bilhões de dívidas irlandesas. Isso também explica a generosidade da chanceler alemã).

E agora, será a vez de quem? Essa é a pergunta que se faz cada vez que um drama dessa natureza é evitado por meio de um recurso banal, injetando dinheiro no país falido. Um país sempre citado é Portugal, que parece numa falência perpétua.

Depois de Portugal, fala-se da Espanha. Sua queda será dramática porque não serão 100 bilhões que a salvarão o país, será preciso muito mais.

Alguns opinam que a Itália também está numa péssima situação, além disso corre perigo de ver o premiê Silvio Berlusconi logo mais implodir, e poderá se incluir no clube dos países europeus falidos.

E uma novidade: o conhecido economista americano Nouriel Roubini, declarou à CNBC que a França também está numa posição delicada. "Suas finanças públicas não estão em melhor estado que as Grécia ou da Irlanda."

Em Paris, o que se fala é que Roubini é famoso pelo seu pessimismo. É verdade que ele foi o primeiro a prever a crise do subprime. Mas não terá sido apenas um golpe de sorte? TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO