Título: Mercados oscilam após pacote de ¿ 90 bi
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/11/2010, Economia, p. B1

Depois de um dia de sobe-e-desce, bolsas fecharam praticamente estáveis com a percepção de que Irlanda teve socorro bastante rápido

A crise das dívidas na Europa já não assusta os mercados financeiros como no primeiro semestre. Ontem, primeiro dia após o anúncio da ajuda da União Europeia à Irlanda, as principais bolsas do continente começaram o dia otimistas, mergulharam em dúvidas e fecharam em queda, mas perto da estabilidade. A explicação: a rapidez do socorro prova que, agora, a zona do euro está mais preparada para auxiliar países periféricos em crise.

O primeiro dia após o anúncio do pacote de ajuda à Irlanda, que pode chegar a ? 90 bilhões, foi de oscilações na Europa. Pela manhã, o índice DAX, da Bolsa de Frankfurt, superou os 6,9 mil pontos pela primeira vez desde a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Em Paris, o CAC 40 também subia.

Mas o cenário começou a mudar à tarde, quando os títulos do setor bancário começaram a cair. Às 15 horas - meio-dia em Brasília -, Paris, Frankfurt e Londres já estavam no negativo, em parte pela reação da opinião pública da Irlanda, avessa ao acordo. No fim do dia, o resultado foram bolsas no vermelho, mas em quedas moderadas.

Em Londres, o Footsie 100 caiu 0,91% e o DAX recuou 0,31%. Em Paris, o CAC40 mergulhou mais: -1,07%. Os maiores prejuízos ocorreram nos "mercados periféricos". Na Espanha, o Ibex35 caiu 2,68%, e na Grécia a queda foi de 2,17%.

No Brasil, o Ibovespa recuou 1,78%, afetado também pelas especulações sobre a permanência de Henrique Meirelles no Banco Central e a ingerência de Dilma Rousseff na política monetária, num momento em que a inflação volta a subir (ler página B4).

Segundo Alain Bokobza, estrategista do banco Société Générale, a reação dos investidores era previsível. "O mercado já esperava que a Irlanda solicitasse o auxílio, e a UE e o Fundo Monetário Internacional já haviam aceitado", explicou ao Estado. "A reação das bolsas é de perda limitada nos principais mercados. Já no sul a reação foi um pouco mais tensa, como na Espanha."

Como resposta ao pacote de resgate, os principais partidos de oposição da Irlanda pediram ontem eleições antecipadas. O primeiro-ministro Brian Cowen anunciou que convocará eleições gerais somente depois que o austero orçamento do país, que será apresentado ao Parlamento no dia 7 de dezembro, for aprovado.

Contágio. Apesar da maior segurança, o temor de contágio de outras economias - em especial a de Portugal - ainda paira na Europa. "A situação de Portugal é complicada, embora diferente da Irlanda", afirma Thibault Mercier, analista de Países Periféricos do banco BNP Paribas.

Porém, nem o eventual contágio de Portugal ameaça o euro como moeda única, segundo os analistas. Grécia, Irlanda e Portugal têm peso limitado no Produto Interno Bruto (PIB) na UE, situação diferente de países como Espanha e Itália.