Título: No estado do Rio, projeto é quase desconhecido
Autor: Pereira, Renée ; Fukuda, Nilton
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/11/2010, Economia, p. B6

Apesar do desinteresse da população, prefeitos brigam pela inclusão de suas cidades no TAV e, de preferência, ter direito a uma estação

Ao entrar no Estado do Rio de Janeiro, o traçado do trem-bala vira assunto desconhecido da maioria da população, apesar de algumas prefeituras disputarem a construção de estações. Por lá, tem gente que nem sabe que existe um projeto e como ele será. É o caso de Valéria Arruda, atendente num restaurante de Resende, no interior do Rio. "Não sabia desse trem, mas não vou querer andar nele não. Prefiro os trens antigos, que andavam devagarzinho", diz ela, depois de saber que o TAV poderá alcançar 350 km por hora.

Quando adolescente, Valéria era passageira assídua de um trem entre Quatis (RJ) a Andrelândia (MG), onde ocorriam as principais festas da região. "Demorava umas cinco horas para chegar, mas eu e minhas amigas íamos conversando. Nem percebia o tempo passar." Enquanto Valéria nem faz questão de saber muito sobre o TAV, a prefeitura de Resende luta para garantir uma estação na cidade. "Aqui tem área de sobra para passar o trem-bala. Com uma estação, vamos atrair mais investimentos", diz o secretário municipal, Alfredo José de Oliveira, que disputa a parada com Barra Mansa e Volta Redonda.

Em Itatiaia, as pessoas também desconhecem onde o trem vai passar. As moradoras Luciane Dumay e Marta Cotrim souberam do empreendimento depois que alguns coreanos fizeram medições em áreas próximas de suas propriedades. Apesar disso, elas são favoráveis à construção do TAV. "Só não pode passar em cima da minha casa", brinca Marta, que tem uma pousada na região. A cidade abriga o Parque Nacional de Itatiaia e a represa da Hidrelétrica de Funil, da estatal Furnas Centrais Elétricas. O trem passa ao lado da lagoa da usina.

Em Barra Mansa, o TAV vai cruzar a antiga Ferrovia do Aço (operada pela concessionária MRS), o Rio Paraíba do Sul e a Rodovia Presidente Dutra, num pontilhão. As novas instalações vão contrastar com viadutos e túneis antigos para a passagem de trens de cargas.

Transposição da Serra das Araras. No Estado, uma das áreas mais delicadas será a transposição da Serra das Araras, que deve ser feita por meio de túneis. Para pessoas leigas em engenharia, fica difícil entender como o trem vai superar os obstáculos do enorme degrau da serra, uma das paisagens mais deslumbrantes do traçado. Depois desse obstáculo, o trem chegará à baixada fluminense, onde passará por áreas densamente povoadas.

A primeira cidade a ser cortada pelo traçado é Queimados, de 134 mil habitantes. Em seguida, passa pelo município de Nova Iguaçu, onde o trem já causou polêmica. A antiga administração estava disposta a impedir que o trem cruzasse a cidade. Com mudanças no comando da prefeitura, por causa das eleições, o assunto foi meio esquecido.

De acordo com o mapa referencial, a ferrovia atravessará um trecho da Reserva Biológica de Tinguá. Além disso, atingiria a Fazenda São Bernardino, construída em 1875 em estilo neoclássico. Na época, a propriedade rural produzia café, açúcar, aguardente, farinha de mandioca e extraia muita madeira, além de exportar carvão. Foi tombada pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e, na década de 80, um incêndio criminoso arrasou a fazenda, que está em ruínas.

Depois de ultrapassar Belfort Roxo e Duque de Caxias, o TAV chegará a capital fluminense. Primeiro terá uma parada no Aeroporto do Galeão e terminará seu trajeto de 511 km na estação Leopoldina, um pouco à frente da Central do Brasil. Até chegar ao ponto final, o trem passará por 90,9 km de túnel, 107,8 km de pontes e 312,1 km de superfície.

Depois de pronto, a expectativa é que a viagem seja feita em 1h33. Mas isso se não houver nenhuma parada. "O TAV terá o objetivo de suprir as dificuldades de demanda enfrentadas especialmente pelo transporte aéreo", diz o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, em recente evento em São Paulo.

De acordo com o presidente da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Bernardo Figueiredo, o trem-bala terá sete estações obrigatórias: Campinas, Aeroporto de Viracopos, Campo de Marte (SP), Aeroporto de Guarulhos, Aparecida, Aeroporto do Galeão (RJ) e Rio. Mas, dependendo do vencedor, outras estações poderão ser abertas no Vale do Paraíba fluminense e paulista. Todo o traçado também poderá sofrer mudanças.