Título: Coutinho, temos de agir logo
Autor: Graner, Fabio
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/12/2010, Economia, p. B4

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, anunciaram no mesmo dia que o governo deve lançar em breve um novo plano de investimento. Será a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP2.) A primeira ficou no meio do caminho. Previa que os investimentos chegariam a 22% do Produto Interno Bruto (PIB). Pararam em 19%. O fato é que BNDES sustentou sozinho o processo de financiamento produtivo.

A grande falha do governo foi estimular intensamente o consumo, que tirou o País da recessão, mas não os investimentos produtivos retraídos pela crise.

Agora se pretende corrigi-lo com um novo plano a ser entregue à presidente eleita Dilma Rousseff, espera-se que dê certo.

A crise passou, o PIB cresce a 7,5% e, mais ainda, eles continuam no governo.

É uma esperança antiga que se renova as travas ao investimento, num momento delicado para a indústria nacional. O crescimento de 10% na demanda interna está sendo suprido pela importação crescente da China e da Europa.

E temos a PDP2. A notícia do novo plano foi recebida com o que se poderia chamar de "esperança cautelosa" porque, à primeira vista, parece uma repetição das intenções do anterior, mas num cenário que se deteriora por falta de investimento na produção.

Houve, sem dúvida, acomodação do governo. O aumento exponencial do consumo, que sustentava o crescimento econômico, era atendido pela importação de produtos que chegavam com preços reduzidos, por causa, principalmente, da distorção cambial. Isso ajudou a conter a inflação, sim, mas conteve também a produção industrial.

A ideia básica no novo plano é reforçar o mercado de capitais, subsidiar as empresas que fazem investimentos produtivos e devolver aqueles créditos antigos obtidos nas exportações, até agora de fato retidos. Subsidiar sim, com juros menores porque esses investimentos geram produção, emprego e receita que, em curto prazo, compensam os custos financeiros do próprio subsídio.

Até agora o anúncio do novo plano não apresenta novidades, mas revela a firme intenção da presidente de voltar a atenção para a indústria que, ao contrário da agricultura (que deu certo!), não contou com muito apoio do governo Lula, que abriu amplo espaço para as importações de manufaturados. A consequência é que, até novembro, o superávit comercial havia recuado 35,4% em relação ao ano passado. Só não foi pior porque as exportações de produtos básicos aumentaram 69,2% até novembro sobre o ano anterior.

As multinacionais atentas. A novidade desagradável é que não podemos contar, este ano, também com investimentos externos. O Banco Central informou que as multinacionais estão aumentando a participação na indústria, mais na área de commodities, com destaque para a extração de minérios, petróleo e alimentos. Sabem onde está o mercado. Por que enfrentar a competição externa, imbatível com a atual taxa de câmbio ligada a uma situação estrutural que não deve mudar a curto prazo? A opção já foi tomada. Os investimentos em commodities e alimentos para atender ao mercado interno simplesmente dobraram entre janeiro e outubro deste ano em comparação com 2009. Eles absorveram 77% de todo o investimento externo, até agora.

Alguns atribuem isso à retração nas economias desenvolvidas. Não é bem assim. Elas estão com problemas internos, sim, mas o fato indiscutível é que não há, no momento, nem condições nem estímulo financeiro oficial para que invistam no Brasil com vistas ao mercado externo. Ponto final.

Vamos corrigir? Luciano Coutinho afirma que sim. Essa distorção entre importações e exportações se corrige com financiamentos em condições que tornem as empresas brasileiras competitivas aqui e no exterior. É o que pretende a PDP2.

Para ele, o plano "é estratégico para o desenvolvimento brasileiro, reforçando a competitividade da indústria e das exportações do País". Coutinho admite que algumas metas da PDP1 não foram cumpridas em função da crise internacional. "Agora,é retomar." Ele revelou que "a presidente Dilma olhará para a indústria com altíssima prioridade. Ela tem interesse firme e claro na Política de Desenvolvimento Produtivo, quando será trabalhada a questão da competitividade industrial".

Já. Para Luciano Coutinho, as medidas deveriam ser implementadas "imediatamente". Há o que ele chamou de "sentido de urgência". Não há porque esperar. Mas revela realismo. Nada será fácil. Há problemas que fogem a uma ação conjunta, como a taxa de câmbio. Vamos ter condições difíceis pela frente nos próximos dois anos, a desvalorização cambial é desafiadora, diz ele. Ainda assim, o presidente do BNDES está confiante no poder de fogo do conjunto de medidas que será anunciado em breve.

Agora, é esperar com esperança redobrada.