Título: Porto Alegre, a capital do pleno emprego no País
Autor: Gonçalves, Glauber
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/12/2010, Economia, p. B6
Índice de desemprego chega a 3,7% e já provoca alta nos salários: alguns pedreiros chegam a ganhar R$ 5 mil por mês
A região metropolitana de Porto Alegre, formada por 31 municípios, atingiu a menor taxa de desemprego já registrada no País. Segundo o último levantamento do IBGE, a região registrou, em outubro, o nível de desemprego de 3,7% da população economicamente ativa.
A tendência é comprovada pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), feita em convênio entre Fundação de Economia e Estatística (FEE), Fundação Gaúcha de Trabalho e Ação Social (FGTAS), Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e Prefeitura de Porto Alegre. A PED capta toda a ocupação, inclusive a informal, e é feita a partir de um levantamento domiciliar, no qual se tem uma amostra de cerca de 7,5 mil domicílios na região metropolitana.
Queda do índice. De acordo com o levantamento, em outubro, a taxa de desemprego foi de 8,2%, a menor de toda a série histórica, que teve início em junho de 1992. Em comparação, a maior taxa de desemprego na região metropolitana de Porto Alegre foi de 19,7%, registrada em outubro de 1999.
"De 2004 a 2008, tivemos uma tendência de redução do desemprego, mesmo com a crise econômica no fim daquele ano. Em 2009, a taxa ficou relativamente estável, até porque foi um ano de recessão. Mas, em 2010, ela vem caindo todos os meses", diz Raul Luis Assumpção Bastos, economista da FEE. Ele explica que, desde julho deste ano, a taxa de desemprego vem atingindo os menores patamares, culminando com o índice histórico de outubro.
Na comparação entre outubro de 2010 e outubro de 2009, a região teve um crescimento de 74 mil ocupações (aumento de 4,1%). A abertura de vagas foi maior em setores como construção civil, com 19 mil trabalhadores a mais (um aumento de 18,8%); indústria, com 19 mil trabalhadores (6,5%); e serviços, com 48 mil trabalhadores (acréscimo de 4,9%). Já o comércio apresentou uma redução de 2 mil ocupações (variação negativa de 0,6%).
"A indústria teve um crescimento importante nesse último ano, mas temos que considerar como uma recuperação no pós-crise, já que foi o setor que mais sofreu com ela. Os que mais contribuem para a redução do desemprego na região são os serviços, que há 20 anos é setor o que mais cresce. A construção civil é um fenômeno recente, dos últimos cinco anos", diz Eduardo Miguel Schneider, coordenador da PED-RMPA pelo Dieese.
Salários sobem. Coordenador do Sistema Nacional de Empregos (Sine) de Porto Alegre, Ayrton Braga Moraes garante que nunca as construtoras contrataram tanto como agora. "Existem empresas que estão pegando até gente sem experiência. Se tu sabes mexer com uma colher de pedreiro, já fica na obra." Segundo ele, o salário está aumentando, chegando a R$ 1,3 mil.
Por outro lado, há casos em que a situação é oposta. Gerente administrativa de uma construtora de Porto Alegre, Simone Loreto é responsável pela contratação dos empregados. Ela afirma que o baixo salário da categoria e a falta de experiência fazem com que os profissionais acabem migrando para outras atividades.
"Às vezes o servente ganha mais como empacotador de supermercado do que fazendo força em uma obra", admite. Segundo ela, o piso da categoria na região chega a R$ 656,00, enquanto o de pedreiro é de R$ 816,00. "Mas como os pedreiros ganham por tarefa, temos uns que chegam a tirar R$ 5 mil por mês."
Disputa por pedreiros. Trabalhando há cerca de 30 anos na construção civil, Antônio Gonçalves Pureza, 52 anos, largou os "bicos" em obras para ter a carteira assinada por uma grande construtora.
Empregado há um ano e meio, ele recebe o piso da categoria, mas reconhece que o assédio é grande. "Existem empresas menores que atacam os operários na porta da obra, oferecendo salários maiores. Para trabalhar no litoral essa época, por exemplo, elas oferecem salário de até R$ 2 mil."
Essa disputa, avalia, é o que faz com que muitos colegas deixem o emprego atual, abrindo mais vagas. "Não existem profissionais para dar conta do recado", comenta Gonçalves.
Tecnologia. Dentro de serviços, a PED subdivide o setor em especializados, segmento que teve um acréscimo de 11,7% de outubro de 2009 a outubro de 2010, taxa de crescimento muito superior à de ocupação (4,1%). Inserido nesse nicho está o ramo de Tecnologia da Informação (TI), um dos mais aquecidos do mercado.
Na região metropolitana de Porto Alegre, várias universidades estão criando e aumentando parques tecnológicos e recebendo empresas multinacionais como parceiras.
"Atualmente, muitas empresas estão aportando na região como prestadoras de serviços de TI. Na região metropolitana, elas têm encontrado mão de obra qualificada com boa produtividade", afirma Diego Accioly Corrêa, 29 anos. Sócio de uma empresa de TI de Porto Alegre, Corrêa está passando uma temporada em São Paulo, onde implementa um sistema que digitaliza laudos, exames e relatórios, o que diminuirá o custo e aumentará a eficiência da instituição.
No ramo de TI, a demanda de serviço não se restringe à região em que estão instaladas as empresas. Há prestadores de serviços com sede em Porto Alegre, por exemplo, que atendem clientes nos Estados Unidos e na Europa.
"É um negócio totalmente globalizado, o que requer cada vez mais mão de obra especializada. E hoje está difícil de conseguir gente. Há disputas entre as empresas por profissionais, com propostas e contrapropostas. E isso faz com que o salário cresça bastante."
Schneider é otimista. Para ele, se a economia nacional permanecer aquecida, a taxa de desemprego continuará caindo. "Entre 2003 e 2009, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu em média 4,8% ao ano. Um crescimento importante, que não lembro ter visto tanto nos últimos 20 anos. Vivíamos o chamado "voo da galinha", em que o PIB crescia, mas entrava em queda rapidamente", diz Schneider. "Desde 2003 e 2004, o PIB aumenta de maneira sistemática. E isso faz com que surjam novos postos de trabalho, reduzindo ainda mais a taxa de desemprego."