Título: Patriota manterá defesa da Unasul e do protagonismo
Autor: Madueño, Denise; Lopes, Eugênia
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/12/2010, Nacional, p. A4
Análise do cenário diplomático, escrita pelo futuro chanceler, deixa claro que ele não mudará a linha adotada por Celso Amorim
Uma análise sobre o papel do Brasil na diplomacia mundial, preparada recentemente pelo futuro chanceler, Antonio Patriota, indica que, no governo Dilma Rousseff, o continuísmo da era Lula está mais que garantido. No texto, Patriota desenha um quadro positivo das relações com os vizinhos, elogia a "diversificação de parcerias" e defende um maior protagonismo do País na cena mundial. O Brasil, diz ele, tem características "que o habilitam a participar, com especial autoridade, nos processos de transformações internacionais em curso".
As avaliações estão em um breve estudo - seis a sete páginas - que o secretário-geral do Itamaraty preparou em meados do ano para a revista Política Externa. Na trilha do ministro Celso Amorim, ele vê o mundo envolto em "profundas e aceleradas transformações", nas quais Brasil, Índia e África do Sul emergem como "parceiros incontornáveis" nos processos de decisão.
Cauteloso, Patriota cria uma linha divisória: "Podemos não saber, com precisão, o que está por vir, mas sabemos identificar os elementos do passado que já não valem". E entre esses elementos estão "os mecanismos de governança tradicionais" - leia-se, o poder de cinco nações decidirem tudo no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Multipolar. A análise de Patriota começa pela macropolítica: ele entende que a unipolaridade, com predomínio da superpotência americana, vem dando lugar a uma multipolaridade gerida por "estruturas de governança de caráter multilateral". Nesse novo quadro, "a supremacia americana é vista como um processo declínio relativo". Ele relata fracassos dos EUA no Iraque e no Afeganistão e diz que o país "não se tem revelado capaz, por si só, de produzir e moldar resultados em escala global, de acordo com os seus interesses".
E o Brasil? O futuro ministro vê a diplomacia do Itamaraty apoiada em três eixos. Primeiro, o "reforço de relações tradicionais" - a camaradagem com os vizinhos sul-americanos, com os EUA, Europa e Japão. Em segundo, "a diversificação de parcerias, especialmente no sentido Sul-Sul", decisão que ajudou muito o Brasil a proteger-se da crise financeira de 2008. E terceiro, um "plano sistêmico" destinado a "aperfeiçoar o multilateralismo e os processos de governança global".
Para ele, está correta a prioridade que se deu ao Mercosul e, agora, à União de Nações Sul-americanas, Unasul. Ele menciona um comercio regional que saltou de US$ 9 bilhões em 2003 para US$ 36 bilhões em 2008. O governo fez bem em abrir 35 novas embaixadas, "em grande parte na África, na Ásia e no mundo árabe". Diz que a opção pela
edstratégia sul-Sul não impediu que o comércio com EUA e Europa crescesse muito. E sustenta que o Brasil desenvolveu "uma política externa que evita falsas opções entre Norte e o Sul, entre o econômico e o político _ e sem descuidar da modernização de suas Forças Armadas".
Lula chama Amorim de `ministro sainte¿
Bem-humorado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou o chanceler Celso Amorim, ontem, de ¿ministro sainte das Relações Exteriores¿. Num improviso na 3ª Conferência das Comunidades Brasileiras no Exterior, no Rio, ele perguntou ao chanceler por que não havia falado um pouco mais. ¿Eu estou saindo¿, explicou Amorim. Lula não aceitou. ¿Tem de falar mais, meu caro. Quando a gente está morrendo afogado, grita para se salvar.¿