Título: Meta cheia só sai com forte ajuste na reta final do ano
Autor: Graner, Fabio ; Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/12/2010, Economia, p. B4

Os números da arrecadação de novembro confirmam o cenário de séria dificuldade para o governo cumprir a meta de superávit primário de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) sem descontar os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mesmo em um ano em que o governo teve a mega-receita de R$ 31,9 bilhões da manobra contábil com a Petrobrás.

A forte queda na arrecadação de novembro em comparação com igual período de 2009 (12,28% já retirando-se a inflação) indica uma tendência de piora no resultado fiscal, especialmente diante do fato de que nos dois últimos meses do ano tradicionalmente há maior volume de despesas públicas. E em dezembro, a base de comparação das receitas do governo federal com dezembro de 2009 também será elevada.

Ou seja, quando o governo mais precisava de receitas, o quadro tem sensível piora. É por isso que o governo entrou em dezembro precisando decidir se vai optar em lançar mão ou não do mecanismo previsto na política fiscal brasileira que permite o abatimento dos gastos do PAC para o cumprimento da meta. Se o governo optar em fazer a meta cheia, sem os abatimentos, será preciso realizar um forte "ajuste" nesta reta final do ano.

Até outubro, o esforço fiscal do setor público estava em 2,85% do PIB, abaixo, portanto, da meta em um valor nominal pouco maior do que R$ 9 bilhões. O ministro Guido Mantega, contudo, mantém firme o discurso de que alcançará a meta cheia. Isso pode ser lido como sinal forte de que a central de contabilidade criativa do governo deve ser acionada para encontrar alguma receita extraordinária para tapar o buraco fiscal. Se isso de fato acontecer, Mantega poderá dizer que cumpriu sua promessa. Mas terá de lidar com nova rodada de questionamentos em torno da credibilidade de sua política fiscal e com a pecha de ministro gastador, título que ele detesta.