Título: Governo e empresas nutrem inflação, diz CNI
Autor: Graner, Fabio ; Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/12/2010, Economia, p. B4

Entidade iniciou estudo para compreender como funcionam mecanismos que levam à alta de preços no País

A cultura inflacionária é alimentada tanto pelo governo quanto pelas empresas. É o que suspeita a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que iniciou um estudo para compreender melhor como funcionam os mecanismos que levam à alta de preços no País.

"Queremos chegar ao ponto de propor ao governo fazer tal política para tal setor para combater a cultura inflacionária", disse o presidente da entidade, Robson Andrade.

Ele avalia que as próprias empresas contribuem para manter a inflação, porque buscam recompor rapidamente suas margens de lucratividade assim que surge oportunidade. Poderiam fazê-lo de forma mais diluída, acredita o presidente da CNI. "Temos uma lição de casa a fazer", admitiu.

Mas o governo tem sua dose de responsabilidade nesse comportamento, segundo explicou. "O melhor exemplo é o pãozinho", citou.

Alguns governos estaduais cortaram a tributação sobre o trigo, o que deveria se refletir na queda do preço do pão. No entanto, o incentivo sempre é dado com prazo determinado, normalmente até o dia 31 de dezembro de cada ano. Nesse horizonte curto, o empresário opta por não repassar o ganho ao consumidor. Se tivesse segurança sobre o benefício num prazo mais longo, ele poderia reduzir os preços.

A CNI pretende que o estudo sirva de subsídio ao debate que já ocorre no governo, sobre os mecanismos de preservação da inflação. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, já mencionou o fato de as tarifas públicas ainda serem atreladas a índices de preços. Para Andrade, a taxa de juros não pode ser a única âncora da estabilidade.

PIB. Ontem, a CNI previu que a após a forte expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010, o crescimento da economia em 2011 deve diminuir o ritmo e ficar em 4,5%. De acordo com a entidade, o PIB industrial também deverá crescer a uma taxa de 4,5% no próximo ano, com 5,1% de expansão no consumo das famílias e 13,5% de variação positiva na formação bruta de capital fixo.

"A demanda doméstica continuará a ser o principal estímulo da economia em 2011, mas em ritmo menor. Além disso, deve haver uma melhor combinação de política fiscal, que será menos expansionista do que foi em 2010", avalia o gerente-executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco.

Para o economista, com o câmbio valorizado e o aumento das importações, o setor externo continuará tendo contribuição negativa para o PIB brasileiro no próximo ano.

"Ou seja, com um comércio mais equilibrado o crescimento poderia ser mais forte", completou Castelo Branco.