Título: Países colocam Protocolo de Kyoto na UTI
Autor: Balazina, Afra
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/12/2010, Vida, p. A25

Conferência do Clima da ONU, em Cancún, deve terminar tão indefinida quanto começou

Colocar o Protocolo de Kyoto na UTI. Essa foi a saída encontrada ontem para tentar agradar a todos os quase 200 países presentes da Conferência do Clima da ONU em Cancún (COP-16), que deve terminar sem avanços.

Um dos grandes impasses da reunião - que começou no dia 29 de novembro e deveria terminar ontem (mas provavelmente ultrapassaria a madrugada) - era a definição se o Protocolo de Kyoto seria continuado ehaveria um segundo período de compromisso dentro do t ratado, já que o primeiro termina em 2012.

Países em desenvolvimento, como o Brasil, querem a sua manutenção. Mas nações como Japão, Rússia e Austrália, por exemplo, são contra. O Japão argumenta que é injusta a sua posição - pois Estados Unidos e China, os maiores emissores de gases-estufa na atualidade - não fazem parte de Kyoto. E que o protocolo só trata de 27% das emissões de gases-estufa. Eles defendem, portanto, um tratado que inclua todos os países.

A estratégia usada para tentar agradar a todos foi a de não matar Kyoto, mas também não definir um segundo período de compromisso do protocolo. Na prática, isso ainda pode ser feito no futuro se os países entrarem em acordo. Ou se pode optar por criar um novo tratado.

Sem resultados. O acordo costurado a respeito de Kyoto, porém, não significava que haveria resultado positivo em Cancún. Com vários adiamentos de plenárias, divergências inconciliáveis entre os países e atrasos na elaboração de documentos, a COP-16 ainda estava completamente indefinida na noite de ontem (16h no horário do México). A preocupação e o desânimo dominavam os corredores do hotel Moon Palace, sede da reunião. ONGs diziam que não houve avanços em nenhuma área negociada.

O ministro do Meio Ambiente mexicano, Juan Rafael Elvira, afirmou que havia o risco de os trabalhos serem postergados para o próximo ano, em lugar e data a serem definidos. Isso poderia ocorrer se a presidência da COP-16 avaliasse que não havia tempo nem vontade política para resolver as questões mais cruciais das negociações.

A Bolívia complicou todo o processo e travou as negociações. Inclusive em relação ao mecanismo que interessa bastante ao Brasil e outros países florestais, de Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal (Redd). O país negou ter abandonado a mesa, mas foi acusado de não colaborar.

"Eu não entendi porque a Bolívia bloqueou o Redd. É muito difícil entender porque um país que tem a floresta como um tema chave bloqueou a definição sobre o mecanismo", disse a comissária da União Europeia para Clima, Connie Hedegaard.

Acordo final. Desde o início da COP-16 não havia expectativas de um acordo com valor jurídico para os países com metas de cortar as emissões dos gases-estufa. Mas se esperava definir um pacote de decisões que pudesse ajudar a combater as mudanças climáticas. Connie afirmou que as negociações por um acordo estavam "mais para a Rodada Doha do que para Durban", onde ocorrerá a COP-17 em 2011, comparando a negociação climática com a de liberalização do comércio, que fracassou.