Título: Mercosul não é um convento, afirma Lula
Autor: Monteiro, Tânia; Fadel, Evandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/12/2010, Economia, p. B13

Presidente debateu com Cristina Kirchner a taxação das toalhas importadas do Brasil

Confrontado com a ameaça de nova disputa comercial com a Argentina, que agora ameaça sobretaxar as importações de toalhas brasileiras, conforme informou o Estado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que "Mercosul não é um convento, não é um encontro de freiras; é um encontro de chefes de Estado, de países soberanos, que sempre vão ter divergências".

O comentário foi feito em entrevista coletiva ao fim da reunião de cúpula do Mercosul. Após a coletiva e antes de embarcar de volta para Brasília, Lula se reuniu com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner. "Divergências fazem parte do processo democrático", disse Lula.

Ele citou que a União Europeia enfrenta o mesmo problema há 50 anos. "O que precisamos é de ter compreensão e maturidade. Não acho que seja problema para o Mercosul ter divergência. Esta é a razão da existência dele", afirmou.

Lula disse que sai da presidência pro tempore do bloco com uma relação extraordinariamente bem sucedida entre os países. "Certamente melhor do que os Estados Unidos e a China; melhor do que Alemanha e França; melhor do que Inglaterra e Irlanda. Podem ficar certos que no Mercosul somos mais unidos e muito mais compreensivos." No discurso de despedida do Mercosul, Lula afirmou que deixa a presidência da República com a certeza de que valeu a pena o trabalho realizado no bloco e que sua sucessora, Dilma Rousseff, viverá o momento privilegiado de integração. "Somos um grande continente em processo de consolidação solidária". Segundo ele, o Mercosul constitui um "ambicioso projeto" e que é gritante o contraste entre o bloco sul-americano, "que floresce" e a rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio, em "desalento".

Lula acrescentou que os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) têm adotado medidas recessivas de ajuste da economia. "Premia-se a imprevidência de especuladores mal sucedidos", disse Lula, em referência à origem da crise financeira internacional nos Estados Unidos. "Os países em desenvolvimento não podem pagar a conta de um problema que não criaram", acrescentou.

Para o presidente deve ser motivo de orgulho o trabalho do Mercosul de atrair outros países fora do continente, como Austrália, Nova Zelândia e Turquia, que participam do encontro do bloco, no Paraná. Segundo ele, a crise financeira internacional fez o comercio do bloco recuar em 2009, mas retomou o ritmo em 2010.

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, elogiou o trabalho de Lula e saudou a chegada da presidente eleita Dilma Rousseff. "Me sinto um pouco sozinha", disse lembrando que poucas chegam a este posto.