Título: Produtores de soja boicotam cana em GO
Autor: Pacheco, Paula
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/01/2011, Economia, p. B10

Os moradores de Jataí (a 322 quilômetros de Goiânia) se orgulham do título de maior produtor de grãos de Goiás. Nesta época do ano, o verde das folhas dos pés de soja está por todo canto. E, se depender dos agricultores e do poder público de Jataí, a expansão da cana-de-açúcar vai ficar no único projeto de pé até agora, o da usina da Cosan. A empresa investiu cerca de R$ 1 bilhão para começar do zero a atividade sucroalcooleira na cidade.

Em dezembro, a Câmara de Vereadores aprovou um projeto de lei do prefeito Humberto de Freitas Machado (PMDB) que, na prática, vai dificultar a vida da Cosan e de futuros projetos. Se a companhia decidir ampliar a usina, terá de submeter a proposta a audiência pública. No caso de algum outro grupo cogitar uma usina em Jataí, melhor desistir.

A nova lei, que pôs de pé o Plano Diretor Rural de Jataí, criou o Conselho Socioeconômico de Desenvolvimento Rural (Coderj), formado por vereadores, sindicato patronal e de trabalhadores rurais, associação comercial e pelo conselho comunitário. O grupo será responsável por avaliar os pedidos de instalação de novas usinas. E, se depender de moradores da cidade como o próprio prefeito, a cana não vai avançar. "Há um movimento na cidade contrário à expansão da cana, com o apoio de várias entidades de classe e da própria prefeitura", diz Antonio Gazarini, produtor de grãos e um dos opositores à cana.

A decisão é um baque para o setor sucroalcooleiro, que escolheu o Centro-Oeste como nova fronteira. Nos últimos seis anos, a quantidade de usinas na região aumentou 106%, enquanto em São Paulo, reduto tradicional da cana, o crescimento foi de 40%. A região é a aposta dos usineiros para o desenvolvimento da atividade. Em 2011, a previsão da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), que representa o setor, é que sejam inauguradas cinco usinas no Centro-Oeste. No ano passado, nove usinas entraram em operação.

Uma das razões para a rejeição dos produtores de grãos à cana em Jataí está no impacto da nova cultura nos preços para arrendamento de áreas de plantio. Para arrendar um hectare, o produtor de soja pagava em média o valor de 12 sacos do grão (cerca de R$ 560). Já a Cosan chega a oferecer 18 sacos (em torno de R$ 840) pela área.

Antes de Jataí, Rio Verde (GO) tentou limitar a área de cana. Porém, a lei municipal foi considerada inconstitucional.

Sérgio Oliveira de Toledo Ribas se animou com a possibilidade de diversificar a atividade rural. Além de ter vendido a área onde hoje está instalada a Cosan, passou a plantar cana, somando à soja e à criação de gado. Começou com 105 hectares e hoje são 500 hectares. Já os grãos ocupam 780 hectares. "O objetivo da diversificação é mitigar o risco. Um ano a cotação da soja pode estar boa, no outro pode ser a vez da cana", explica.

Para Ribas, o interesse pela cana será inevitável. "O que vai prevalecer é a remuneração, não adianta querer espernear", diz. Mas, segundo Gazarini, o avanço não será tão fácil: "A Cosan está aí, é uma realidade. Mas outras usinas nós não vamos deixar entrar", afirma.

Gazarini baseia seu argumento no fato de a cidade ter uma economia voltada à atividade de grãos, de lojas de fornecimento de sementes a indústrias processadoras. A diminuição da área de soja, substituída pela cana, poderia colocar toda a cadeia sob ameaça de desabastecimento ou de aumento de custos. "Tem empresas querendo se instalar em Jataí que preferiram esperar a decisão do poder público para ter a garantia de que não haverá espaço para a cana", explica.

Represália. Comerciante e produtor, Adelino Gameiro das Neves, de 75 anos, substituiu parte da pastagem da fazenda por cana. Ele recebe da Cosan uma espécie de aluguel mensal pelos 915 hectares arrendados, de um total de 1.600 hectares.

Neves diz estar feliz com a troca, mas tem enfrentado muita "cara feia" desde que passou a plantar cana. Seus filhos são donos da maior concessionária de veículos da cidade. Alguns produtores, insatisfeitos com a decisão dele de se tornar arrendatário, decidiram boicotar os negócios da família e cancelaram pedidos para a compra de veículos. Neves prefere não falar sobre o assunto.

Na opinião de Neves, a nova lei que barra os negócios sucroalcooleiros na cidade "não tem sustentação jurídica, porque fere uma lei superior que é o direito a propriedade".

Uma das alternativas para evitar o embate, defende Mozart Carvalho de Assis, presidente do Sindicato Rural de Jataí e vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), é que haja um planejamento estadual para a ocupação de áreas de pasto degradado por cana. Isso evitaria que a soja perdesse terreno e ainda garantiria o desenvolvimento de regiões pouco assistidas pelo agronegócio.

Enquanto cresce o enfrentamento em Jataí, Eurismar Gonçalves Pereira e a mulher Leilian fazem planos para melhorar de vida. Pereira, de 28 anos, era motorista de caminhão e transportava grãos. Quando soube que a Cosan estava recrutando funcionários, levou o currículo até a usina e foi selecionado para a vaga de operador de colhedora.

Pereira começou a trabalhar em fevereiro passado e, com o dobro da renda (o salário foi de cerca de R$ 1 mil para quase R$ 2 mil), equipou a sala, a cozinha e a área de serviço da casa, financiou a compra de um terreno e trocou o Gol 1998 por um modelo zero. E ainda abriu há quatro meses um salão de beleza para a mulher. "Se Deus quiser neste ano vou construir minha casa", planeja.

Mineiros. Assim como Jataí, a vizinha Mineiros tem vocação rural. Além da soja e de outros grãos, os produtores rurais vivem da avicultura e da pecuária. Eles abastecem principalmente a duas grandes empresas da região, Perdigão (que pertence a Brasil Foods) e a Marfrig.

A Usina Morro Vermelho, da ETH, foi inaugurada em agosto do ano passado e acaba de encerrar a moagem da primeira safra. O investimento foi de R$ 1 bilhão.

Nem a possibilidade de desenvolvimento de uma nova atividade agrícola nem a geração de empregos quebraram a resistências dos produtores de grãos, que começam a se articular para replicar na cidade o modelo adotado por Jataí. Assim, os agricultores pretendem frear a expansão da rpoduçao de cana na região.

Presidente da Comiva, cooperativa de produção e comercialização de produtos agropecuários do Estado, Júlio Sânzio Vilela conta que o grupo de 1.200 cooperados decidiu suspender a construção de uma unidade de armazenamento em Perolândia, cidade vizinha, por temer que a área de soja seja espremida pela cana.

"Há um clima de medo. Nenhuma outra cultura chegou com essa ameaça. Grandes empresas que dependem da soja, como Marfrig e Perdigão, também sentem seus investimentos ameaçados e não vão querer ficar onde não há grãos para comprar", explica Vilela.