Título: Para conter alta do real, Banco Central comprou US$ 41,4 bilhões em 2
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/01/2011, Economia, p. B1

No esforço de tentar conter o derretimento da cotação do dólar no Brasil, o Banco Central acelerou a compra da moeda estrangeira em 2010. Nos leilões realizados diariamente, a instituição ficou com US$ 41,4 bilhões no ano passado ¿ cerca de US$ 165,6 milhões a cada dia útil.

O valor total se aproxima do dobro dos US$ 24,3 bilhões que entraram no Brasil. Ou seja, o BC comprou todos os dólares que ingressaram no País e ainda uma parte da moeda que estava no caixa dos bancos. Ao todo, o valor adquirido foi 72% maior que o registrado em 2009.

Em um ano marcado pela recuperação acelerada da economia brasileira e o interesse crescente de investidores estrangeiros pelo País, o Brasil foi um verdadeiro ímã de dólares. Em 2010, foi recorde a entrada da moeda pela chamada conta financeira, onde são registradas transferências para compra de ações e títulos de renda fixa, investimentos produtivos, empréstimos e remessas de lucros. As operações trouxeram US$ 26 bilhões ao mercado, cifra 38% maior que o recorde anterior de 2009.

Boa parte dos recursos ingressou para aplicações financeiras, como na oferta de ações da Petrobrás e para compra de títulos de renda fixa, além de investimentos produtivos. Com tantos dólares disponíveis, o preço da moeda norte-americana caiu seguidamente no Brasil. Para evitar que o fenômeno prejudicasse a atividade econômica, o governo reagiu. De um lado, o Ministério da Fazenda aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para estrangeiros que chegam ao Brasil interessados no juro pago em títulos da dívida. De outro lado, o BC acelerou a compra de dólares nos leilões.

"Há um movimento claro de tentar evitar uma apreciação muito grande e rápida do real. O governo está claramente preocupado e esse esforço é para tentar tornar o movimento mais brando", diz a economista-chefe do Banco Fibra, Maristella Ansanelli. No ano passado, o valor das intervenções do BC foi o segundo maior da série, atrás apenas de 2007, quando, antes da crise, as compras retiraram US$ 78,6 bilhões que circulavam no mercado.

Comércio exterior

Uma das várias preocupações do governo é que a entrada maciça de dólares derrube ainda mais o preço do dólar no Brasil a ponto de inviabilizar a exportação de alguns setores da economia e, ao mesmo tempo, acelerar a importação de mercadorias. A equipe econômica está em alerta máximo para o tema até porque o movimento já começa a ser observado. Em 2010, o comércio exterior foi responsável pela saída líquida de US$ 1,65 bilhão do País.

Essa foi a segunda vez desde o início da série, em 1982, que o pagamento por importações superou a receita obtida com as exportações brasileiras. A outra vez foi em 1997. Ou seja, o comércio exterior foi responsável pela saída de dólares no ano passado.

Esse número mostra reversão da tendência observada nos últimos anos, quando as exportações geraram recordes de entrada de dólares, fato que permitiu o forte aumento das reservas. Em 2008, por exemplo, mesmo com a crise global, o comércio exterior havia trazido US$ 47,9 bilhões ao País e, em 2007, o valor somou US$ 76,7 bilhões.

Apesar do saldo da balança comercial brasileira ter chegado a US$ 20,3 bilhões em 2010, o resultado financeiro líquido das transações com o exterior ficou negativo, porque nem todos os dólares foram trazidos ao País pelos exportadores. Uma parte das empresas prefere deixar o dinheiro no exterior.