Título: Agora, apostas especulativas tendem a se reduzir
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/01/2011, Economia, p. B4
Análise
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, saiu da tática de conter o mercado de câmbio com o "gogó" para a prática e conseguiu evitar nos últimos dias uma queda ainda mais forte do dólar frente ao real. A decisão do governo de voltar a atuar no mercado futuro, com a oferta pelo Banco Central de contratos de swap cambial reverso, mostrou mais uma vez o desconforto com o dólar operando abaixo de R$ 1,70 e se aproximando da cotação, já classificada de novo "piso informal", de R$ 1,65.
A operação de venda dos swaps foi considerada pela equipe econômica um sucesso e a avaliação que prevalece é a de que as apostas especulativas daqui em diante tendem a se reduzir, dando mais tranquilidade ao governo para trabalhar em medidas que possam garantir maior competitividade aos exportadores brasileiros. Além disso, o governo colocou na mesa a possibilidade de aumentar ainda mais o peso da "mão intervencionista" no câmbio, por exemplo, com o uso do Fundo Soberano do Brasil nas operações cambiais para conter a especulação e administrar as expectativas.
O governo Dilma começou com uma ação mais ofensiva no mercado de câmbio e com a adoção de linguagem direta para alertar os operadores em relação a novas medidas. Não se descarta, inclusive, nova rodada de alta do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o capital externo que aplica no País em renda fixa e ações.
O que diferencia do governo Lula é a maior sintonia e coordenação entre as ações do Banco Central e do Ministério da Fazenda na política cambial. Um sinal desse novo quadro é o respaldo dado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Em reunião extraordinária, o CMN bancou a decisão do BC para voltar a operar no mercado de derivativos. O ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, sempre foi reticente à volta dessas operações porque defendia esse comprometimento do governo, via CMN, para validar a ação do Banco Central.
Essa ação coordenada mostrará resultados também na próxima semana com a assinatura do convênio entre o BC e o Tesouro para as operações cambiais do Fundo Soberano, o que intensificará a pressão sobre o mercado.
Nessa ofensiva inicial no câmbio, a maior preocupação do governo não foi somente conter o que o ministro classificou de "derretimento" do dólar - ele avalia inclusive que a moeda norte-americana poderia ter caído para o patamar de R$ 1,50 a R$ 1,45 - mas também a ação especulativa que ganhou força nos primeiros dias do ano, inclusive de grandes fundos de investimento. Essas operações acederam a luz amarela e fizeram o governo a agir mais agressivamente.
O governo e, principalmente, o Ministério da Fazenda, ergueu o câmbio ao topo da agenda de problemas econômicos. Embora se saiba que a tendência de valorização do real não vai mudar no curto e médio prazo, porque o Brasil é um País que continuará atraindo fortes capitais externos, o governo tem preferido continuar com a política de intervenção.
O objetivo é estabilizar a moeda novamente num patamar em torno de R$ 1,70. O custo dessa política de maior intervenção no regime de câmbio flutuante vai impactar cada vez mais na economia. Os swaps trazem riscos de perdas futuras para o BC; a política de acumulação das reservas tem um custo fiscal; e um dólar mais alto pressiona a inflação, outro lado perverso do câmbio. Mas disso, o governo prefere não falar.