Título: Governo aumenta ativismo no câmbio
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/01/2011, Economia, p. B4

A cada dia, fica mais claro que o Brasil adota, hoje, um regime cambial caracterizado pela chamada "flutuação suja"

Preocupado em garantir competitividade ao setor exportador, o governo vem aumentando significativamente, desde outubro do ano passado, seu ativismo no mercado de câmbio.

Seja com um discurso cada vez mais aguerrido, seja com ações efetivas - como o aumento do IOF para 6% nas aplicações estrangeiras em renda fixa -, o fato é que o regime cambial flutuante no Brasil está, para usar um jargão do mercado financeiro, cada vez mais "sujo".

O governo vem deixando claro que não aceita a moeda abaixo de R$ 1,65. Ou seja, embora as forças de mercado, em tese, ainda atuem para determinar a taxa de câmbio, o peso crescente do governo na definição das cotações tem suscitado questionamentos, sobretudo entre economistas ligados ao mercado.

"Parece que o regime de câmbio flutuante só vale para um lado", afirmou o economista sênior do banco BES Investimento, Flávio Serrano. "Teoricamente o mercado forma preço, mas, quando se aproxima de R$ 1,65, o governo age com medidas."

O economista discorda dessa postura agressiva porque, na prática, entende, isso significa transferência de renda de setores que se beneficiariam da valorização do real para o setor exportador.

O economista rebate a tese de que o câmbio estaria minando a indústria brasileira. Lembrando que esse segmento tem crescido fortemente puxado pela demanda interna, Serrano destaca que a forte presença de commodities na pauta exportadora se explica por uma questão conjuntural, marcada pela alta nos preços de produtos agrícolas e minérios e pela baixa demanda por manufaturados em razão do baixo crescimento do mundo desenvolvido.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, também afirmou que, embora o sistema de câmbio flutuante sujo seja a forma mais correta de o Banco Central agir, a solução para mudar o nível atual desse preço na economia passa pelo reforço da política fiscal.

"Esse ajuste ajudaria a conter o crescimento da demanda, desaceleraria a inflação e ajudaria as importações a crescer menos. Com isso, a conta corrente viraria um problema menor", disse.

Para ele, o novo governo começou com uma política econômica mal calibrada. "Se o governo tentar estimular o crescimento fazendo mix de política centrado em câmbio depreciado com juros baixo, o único resultado será inflação."

Defesa. O economista da Tendências Consultoria André Sacconato considera que a atual sistemática de atuação do governo no câmbio está adequada. "Ainda temos um regime de câmbio flutuante. Não existe no mundo câmbio totalmente livre. Ninguém seria ingênuo de fazer isso", disse. "O governo está optando por interferência que não fira pressupostos do livre mercado. Não está se fazendo quarentena, câmbio diferenciado por segmento, nada artificial."

Ele argumenta que se trata de um ajuste no câmbio flutuante, que sem dúvida se tornou mais sujo. "A flutuação suja é o melhor jeito de se tratar com o câmbio", afirmou.

Procurado, o governo evitou tecer comentários oficiais sobre a política cambial. Nos bastidores, fontes da equipe econômica afirmam que essa postura de maior intervencionismo é derivada da conjuntura internacional, da tal guerra cambial, como definiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

"Todo mundo está agindo assim. Nós não podemos ficar parados", disse um integrante da área econômica. "O câmbio flutuante não acabou, mas não podemos ficar só olhando enquanto os países desvalorizam suas moedas", acrescentou a mesma fonte.