Título: BC intervém e dólar sobe mais de 1%
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/01/2011, Economia, p. B4
Além de o BC comprar US$ 987,8 milhões em contratos futuros, o mercado reagiu ao aumento do compulsório dos bancos na China
O dólar subiu 1,02 % no dia em que o Banco Central (BC) voltou a atuar no mercado futuro. Para tentar interromper a queda das cotações, a instituição realizou ontem leilão com contratos que equivaleram à compra de US$ 987,8 milhões.
Atuações desse tipo não aconteciam desde maio de 2009. Mas analistas observam que não é possível atribuir a alta do dólar exclusivamente à ação do BC, já que uma decisão na China elevou o preço da moeda dos Estados Unidos na comparação com várias divisas. No fechamento do mercado sexta-feira, o dólar registrava alta de 1,02% e era trocado de mãos a R$ 1,6860.
A decisão do BC, de retomar as atuações no mercado de dólar futuro, pegou muita gente no mercado financeiro de surpresa. A medida foi anunciada na noite de quinta-feira e, por isso, afetou apenas os negócios de ontem.
Na primeira operação desse tipo depois de mais de 20 meses, o BC negociou contratos que equivaleram à compra de pouco menos de US$ 1 bilhão, distribuídos em três datas entre abril de 2011 e janeiro de 2012.
Nesse tipo de operação, o BC recebe a variação do dólar até a data de vencimento do contrato. Por isso, a operação corresponde à compra da moeda no mercado futuro. Em troca, a autoridade monetária oferece aos bancos a taxa Selic do período. Essa troca de taxas é realizada em um contrato chamado de swap cambial reverso.
Ao todo, foram oferecidos 20 mil contratos e todos foram vendidos aos bancos. A operação, vale observar, não tem relação com a decisão do Fundo Soberano do Brasil de usar o BC para operar no mercado futuro.
"Não dá para afirmar com apenas um resultado que a nova estratégia é bem sucedida. A avaliação só será possível ao longo do tempo. Mas a experiência tem mostrado que essas medidas têm efeito apenas no curto prazo", diz o economista sênior do Espírito Santo Investment Bank, Flávio Serrano.
Efeito rápido. Serrano lembra que ações recentes, como o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para estrangeiros e aumento das exigências para operações no câmbio, geraram efeito de "poucos dias" nas cotações que subiram inicialmente, mas voltaram a cair em seguida. "Em pouco tempo, o fluxo de dólares e a contínua depreciação do dólar em relação às demais moedas, inclusive o real, passam a falar mais alto e a cotação volta a cair."
Além da medida brasileira, o mercado também foi afetado pela notícia de que o Banco Central da China aumentou novamente o depósito compulsório dos bancos, medida que tenta reduzir o ritmo de crescimento e, assim, ajudar a conter a inflação no gigante asiático. A medida prejudica exportações de commodities de países como a Austrália e Brasil. Por isso, a notícia prejudicou moedas desses mercados e também colaborou para a subida do dólar.
Equilíbrio. A decisão do Banco Central de retornar ao mercado futuro aconteceu após uma medida anunciada há alguns dias que exige recolhimento de depósito compulsório para operações dos bancos no mercado cambial.
Para evitar recolher dinheiro sem remuneração no BC, bancos estão dispostos a liquidar empréstimos no exterior. Para isso, será preciso comprar dólares no mercado à vista.
Mas se os bancos comprarem esses dólares - estimados em US$ 7 bilhões - também será preciso anular posições no mercado futuro usadas atualmente para proteção às variações da moeda, o chamado hedge cambial. Essa liquidação acontece com a venda de dólares no mercado futuro.
Mas na avaliação do BC, não há compradores disponíveis. Por isso, a instituição decidiu atuar comprando dólares no segmento futuro para evitar desequilíbrios do mercado.