Título: Confrontos de rua se alastram e mergulham capital egípcia no caos
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/02/2011, Internacional, p. A12
Opositores resistem a multidão pró-regime que tenta invadir Praça Tahrir; distúrbios [br]chegam a Alexandria
Jamil Chade - O Estado de S.Paulo
Ruas destruídas, centenas de feridos, desaparecidos e pelo menos 13 mortos. A batalha pela Praça Tahrir (Libertação) - no centro do Cairo, na madrugada e manhã de ontem - deixa o maior país do Oriente Médio desgovernado e com a perspectiva de mais uma jornada sangrenta hoje.
Manifestantes contrários ao regime do presidente egípcio, Hosni Mubarak, esperam reunir milhares de pessoas nesta sexta-feira após as orações nas mesquitas de toda a cidade e exigir a saída do presidente. Ontem, manifestantes contra e a favor do regime voltaram a se enfrentar nas ruas do centro da capital. A violência também chegou a Alexandria e outras cidades, enquanto provas do envolvimento de forças do governo na repressão eram expostas ontem por grupos de direitos humanos.
A madrugada foi o palco de uma guerra sangrenta. Opositores conseguiram resistir aos ataques das milícias do governo e mantiveram o controle da Praça Tahrir, o epicentro dos confrontos. De ambos os lados, a percepção é a de que o controle da praça simboliza a posição de vantagem no impasse, que se arrasta por 11 dias.
Apesar da violência, grupos pró-Mubarak foram freados pela oposição, que insistia em declarar vitória. "Essa é a primeira derrota militar de Mubarak", afirmou ao Estado Ahmed Tamer, um dos líderes da oposição.
Por quase toda a madrugada, corpos foram arrastados pelas ruas após um tiroteio frontal entre os dois grupos. O Exército parecia não se importar. Bombas, rajadas de metralhadoras e cenas dramáticas marcaram já as primeiras horas da manhã de quinta-feira.
Ruas inteiras haviam sido destruídas e até pedaços de paredes de edifícios haviam sido utilizados como armas no confronto. No centro da praça, manifestantes exaustos e apavorados tentavam respirar, sabendo que não demoraria muito para que novos ataques ocorressem por parte das milícias do governo. Simpatizantes traziam para a área do confronto alimentos, água e remédios para tratar os feridos. "Essas pessoas estão lutando pelo futuro dos meus filhos. Tenho de ajuda-los", afirmou o dono de um restaurante local, distribuindo alimentos.
Horas depois, o Exército conseguiu estabelecer uma linha divisória entre os dois grupos. Segundo pessoas ouvidas pelo Estado, a trégua foi apenas momentânea. Ambos apenas estariam recompondo suas forças para os confrontos de hoje.
Dos dois lados, marchas foram convocadas e a disputa pela Praça Tahrir deve ser retomada. Do lado da oposição, o dia é considerado como o fim do ultimato para Mubarak. No lado do governo, será o dia para desocupar finalmente a praça que virou o símbolo da humilhação do regime.
"Parem agora com a violência e nos deem uma chance de implementar a reforma que anunciamos", afirmou Omar Suleiman, chefe da polícia secreta alçado ao até há duas semanas inexistente cargo de vice-presidente. Seu governo diz que as demandas dos manifestantes são "legítimas", mas uma chance agora deve ser dada ao Estado para promover as reformas.
Pelas contas do próprio governo, o Egito já perdeu US$ 1 bilhão com a crise política. A ONU está retirando centenas de funcionários e milhares de diplomatas estrangeiros estão deixando o país. Em nove dias, 1 milhão de turistas abandonaram o país.
O regime acusa a oposição de tentar um "golpe orquestrado por agentes estrangeiros".