Título: Levante no Egito põe jihadistas em situação embaraçosa
Autor: Leland, John
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/02/2011, Internacional, p. A18
A ideologia do Islã radical foi desenvolvida no Egito e seus quadros cresceram nas prisões de Hosni Mubarak. No entanto, quando os cidadãos que protestavam entraram em choque com grupos favoráveis ao governo na Praça Tahrir, no Cairo, os jihadistas ficaram de fora. Enquanto Mubarak balançava, os jihadistas se davam conta do que significa ver um rival ser atacado por uma revolta com cujos objetivos eles não compartilham e com uma série de líderes que eles não apoiam.
A ambivalência dos grupos radicais ficou patente esta semana na internet, ferramenta fundamental para o movimento em termos de organização. No site Muslim.net, associado à Al-Qaeda no Egito, o apelo era para que jovens de outros países fossem para o Egito para unir forças com a jihad. "Olá, irmãos, a queda do tirano do Egito simboliza a queda dos tiranos da terra", dizia. "Chegou o momento de matar a vaca." Segundo um especialista, isto foi o máximo que eles puderam concluir a respeito da crise.
"Como sempre, o movimento online da Al-Qaeda está analisando os acontecimentos por meio de lentes oportunistas", disse Jarret Brachman, consultor de contraterrorismo e autor do livro Global Jihadism, que monitora os sites fundamentalistas. Algumas mensagens instavam os radicais egípcios a atacarem o gasoduto de Arish-Ashkelon, que vai até Israel. "Esta é a chance de cortar o fornecimento dos israelenses", dizia uma internauta no fórum Shumukh al-Islam, segundo o grupo SITE Intelligence, que também vigia os extremistas.
No Iêmen, onde a Al-Qaeda é mais forte, o grupo postou um discurso em vídeo do líder Abu Sufyan al-Azdi, incentivando ataques a uma organização xiita que, segundo o SITE, é considerada parte do avanço iraniano no país.
Os grupos jihadistas, que provocaram o caos no Egito no início da década passada, foram esmagados por Mubarak e não têm apoio popular. Eles têm problemas estruturais. A Irmandade Muçulmana, organização conservadora, mas não violenta, é a oposição política mais conhecida. Embora muitos líderes da Al-Qaeda, como o Número 2 de Osama bin Laden, Ayman al-Zawahri, tenham militado na Irmandade, os dois grupos têm posições contrárias.
Na terça-feira, a Irmandade anunciou seu apoio a Mohamed ElBaradei, muçulmano liberal, para liderar a oposição nas negociações com Mubarak - posição contrária à da Al-Qaeda, que exalta a autoridade humana e não a divina.
No site Hanein, da Al-Qaeda, um post convocou os jihadistas a se unirem à Irmandade Muçulmana, porque ambos apoiam a revolução islâmica, apesar das divergências. "Precisamos nos sacrificar pela nossa religião e não permitir que os títulos nos prejudiquem." Em sua posição enfraquecida, alguns jihadistas se esforçam para entender que papel lhes cabe nos protestos no Cairo.
No site Ansar al-Mujahedin, um anônimo ressaltou as objeções de muitos jihadistas aos "erros e ao distanciamento da religião" dos manifestantes. E acrescentou que, no entanto, não era possível ignorar os benefícios dos distúrbios, inclusive a possibilidade de os jihadistas tomarem o poder.
Entretanto, o mesmo autor da mensagem reconheceu que, na opinião de muitos jihadistas, substituir Mubarak por um líder secular e democrático significaria trocar um tirano com vínculos com os EUA por outro. "Portanto, ficaremos esperando e não nos preocupamos com os revolucionários que brigam contra a injustiça. Continuaremos seguindo o rumo da nossa luta, apoiando os nossos irmãos jihadistas."
A ambivalência e a retórica embaralhada refletem a velocidade inesperada dos protestos, segundo Brian Fishman, que pesquisa o terrorismo para a New America Foundation. em Washington, que monitora a Al-Qaeda e outros grupos islâmicos. "Como todos os outros, eles estão tentando entender um movimento social cuja existência não haviam percebido e cujas dimensões desconheciam", disse. "Portanto, estão sendo oportunistas. Estão contando e incorporando sua própria história aos fatos, embora ela talvez não se encaixe."
Mesmo que muitos tentem embarcar na rebelião popular, para a maioria, a única autêntica reforma é um governo islâmico liderado por jihadistas. No longo prazo, disse Fishman, a rebelião é "um repúdio direto ao argumento básico da Al-Qaeda de que a única maneira de introduzir mudanças nos países árabes é por meio da violência total".
No entanto, muitos viram no rompimento a chance de fortalecer suas posições, como os terroristas no Iraque, que ganharam força depois da queda de Saddam Hussein. O site As-ansar, da Al-Qaeda, pede aos jihadistas que não desperdicem energia protestando, mas explorem a desagregação da segurança para se apoderarem de armas de uso militar e reunirem nomes e endereços de espiões e de funcionários do governo para futuros assassinatos.
O autor da mensagem pediu que os fiéis libertem os presos muçulmanos e destruam todos os documentos contra eles. Ele também pediu que ataquem uma igreja copta que, segundo os islâmicos, mantém duas mulheres presas por tentarem se converter ao islamismo.
Enquanto a retórica sombria aumenta nos sites jihadistas, as piadas se multiplicam pela web. Uma é em forma de pergunta e resposta. O que ocorrerá se os manifestantes ganharem no Egito? Resposta: irão à final com a Tunísia. Ou outra, sobre uma conversa de Obama com Mubarak. "Sugiro que você escreva uma nota de despedida para os egípcios", diz Obama. "Por que? Para onde eles vão", responde Mubarak. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA