Título: Egípcios fazem filas para protestar em praça
Autor: Sant?Anna, Lourival
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/02/2011, Internacional, p. A8

Pelo 13º dia seguido, funcionários públicos põem em jogo emprego e mulheres lideram manifestações na praça central do Cairo, cercada pelo Exército

São 15h25. Uma chuva fina e fria cai sobre o centro do Cairo. Mas os manifestantes continuam chegando à Praça Tahrir, para exigir a saída do presidente Hosni Mubarak, no poder há 30 anos. Na principal das cinco entradas controladas por manifestantes e vigiadas pelo Exército, a da Avenida Kasr El Nil, continuação da ponte sobre o Rio Nilo, a fila tem cerca de 300 pessoas. No final, estão Hany Mohamed, de 32 anos, e Adel Wagdi, de 31.

Os dois trabalham na área de informática do Conselho Supremo da Cultura, que cuida do patrimônio histórico do país. Saíram do trabalho, às 15h, para a manifestação. Mohamed dorme na praça há três noites, assim como milhares de acampados.

"Não tem problema, por serem funcionários públicos?", pergunta o repórter do Estado. "Eles não sabem", responde Wagdi, referindo-se aos chefes da repartição. "Eu acho que sabem", discorda Mohamed. "Você é jornalista?", perguntam. "Sim, mas não contem a ninguém", pede o repórter. Eles sorriem, com cumplicidade. Nos últimos dias, dezenas de jornalistas, inclusive brasileiros, foram espancados por policiais e manifestantes pró-Mubarak e detidos pela polícia e pelo temido serviço secreto, a Mukhabarat.

A espera dura 11 minutos. Mulheres entram por uma fila separada. Várias das muitas manifestações na praça são lideradas e compostas exclusivamente por mulheres. Mas elas também se misturam aos homens, algumas de mãos dadas e até abraçadas a eles, ainda que usando o véu islâmico. Voluntários verificam os documentos e revistam os manifestantes. Ao fim, há um corredor de manifestantes que dão as boas-vindas gritando: "Aqui está o povo egípcio." Após 13 dias, a euforia parece inabalada.

Muitos trazem ferimentos no rosto e na cabeça, sinais da batalha campal da semana passada contra manifestantes pró-Mubarak. Um homem permanece deitado, com a testa coberta por uma bandagem e dois dedos da mão direita fazendo o "V". Um desconhecido se inclina e beija o curativo. Feridos são tratados como heróis.