Título: Especialistas em Oriente Médio veem limites à primavera árabe
Autor: Sant?Anna, Lourival
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/02/2011, Internacional, p. A8

Se protestos ameaçam Argélia, Iêmen e Bahrein, regimes da Síria, Arábia Saudita e Jordânia [br]demonstram resistência

Estudiosos do Oriente Médio estão céticos sobre o alcance da "primavera árabe" que chacoalhou o Egito depois de derrubar o governo na Tunísia, onde ontem foi suspenso o partido que manteve por 32 anos Zine El Abidine Ben Ali no poder. Em Damasco, Riad ou Amã, há sinais de que um mundo árabe democrático não deve se materializar tão cedo, afirmam. O potencial de instabilidade no Iêmen, Argélia e Bahrein, porém, cresceu.

A Síria não deve virar um novo Egito pois os habitantes de Damasco e Alepo temem ter um destino similar aos de Bagdá. A oposição jordaniana não defende a queda do rei Abdullah II. "Apesar de Síria e Egito serem repúblicas seculares e terem similaridades, a sociedade síria vive em um contexto diferente. Os sírios são traumatizados pela violência e o caos no Iraque. Nenhum sírio quer o risco de um guerra civil", diz Joshua Landis, professor da Universidade de Oklahoma.

Além disso, a Síria sofre embargo dos EUA e mantém uma posição anti-Israel, ao contrário do Egito, que assinou um tratado de paz com os israelenses e recebe US$ 1,3 bilhão dos americanos em ajuda militar por ano. Nesse sentido, a Jordânia seria a mais próxima da lista.

Enquanto os protestos têm sido um fracasso em Damasco, em Amã eles ocorrem todos os dias ao longo das últimas semanas. Mas a monarquia hachemita não corre risco, segundo Robert Danin, do Brookings Institution. "Até os radicais islâmicos demonstram lealdade à monarquia. Eles querem mudanças nas políticas do governo, não mudança de regime", afirmou.

O cenário é mais grave no Iêmen, país-chave para os EUA no combate ao terrorismo. "O Iêmen enfrenta uma série de ameaças existenciais, com movimentos separatistas e a presença da Al-Qaeda", diz Ayhan Kamel, da consultoria Eurasia.

A Argélia também enfrenta um cenário grave, com 70% da população abaixo dos 25 anos e, em sua maioria desempregada. A sucessão do presidente Abdelaziz Bouteflika também é incerta. O Bahrein, por sua vez, vive uma tensão sectária entre xiitas e a monarquia sunita.