Título: Brasil tratava ditadores como amigos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 06/02/2011, Internacional, p. A14

Ditadores e autocratas, alguns deles alvos de protestos nas ruas das grandes cidades do norte da África e do Oriente Médio, eram chamados de "amigos" pelo então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, há apenas 18 meses. Os elogios do chefe de Estado brasileiro a "líderes políticos", como o presidente da Líbia, Muamar Kadafi, foram feitos em inúmeras viagens internacionais.

O ápice da realpolitik brasileira, contudo, ocorreu na Cúpula da União Africana, em 2009, quando 53 chefes de Estado e de governo do continente se reuniram e receberam Lula como convidado especial. À época, o então presidente realizava giros por Ásia Central, Oriente Médio e África.

Nenhum outro líder estrangeiro de relevância, nem o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, compareceu ao evento, marcado pela presença de uma legião de ditadores, incluindo o presidente do Sudão, Omar Bashir, que tem um mandado de prisão internacional contra ele emitido pelo Tribunal Penal Internacional, de Haia, que o acusa de genocídio e crimes contra a humanidade.

"Amigos". Em seu discurso, Lula começou agradecendo Kadafi, a quem chamou de "meu amigo, meu irmão e líder". A seguir, elogiou "a persistência e a visão de ganhos cumulativos que norteiam os líderes africanos" e denunciou o "preconceito premeditado" da comunidade internacional contra os governos autocráticos locais.

Ao definir Kadafi como "amigo", o então presidente brasileiro repetiu o elogio feito várias vezes a um outro líder regional, Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã. O líder iraniano, aliás, não compareceu ao encontro. Nenhuma explicação oficial foi dada para a ausência de Ahmadinejad.

Nos bastidores, porém, algumas delegações africanas se mostraram desconfortáveis com a hipótese de que o presidente iraniano, que então sufocava protestos populares contra sua reeleição, em Teerã, confraternizasse com os demais chefes de Estado presentes na cúpula.

Apoio a Mubarak. Outro "amigo" do Brasil em 2009 era presidente do Egito, Hosni Mubarak. Em setembro daquele ano, o Palácio do Planalto recusou-se a apoiar a candidatura do engenheiro brasileiro Márcio Barbosa ao cargo de secretário-geral da Unesco.

O argumento era o acordo entre Brasília e o Cairo pela candidatura do egípcio Farouk Hosni, ex-ministro da Cultura de Mubarak, acusado de antissemitismo por intelectuais de diversos países.