Título: Demanda doméstica será robusta ainda este ano
Autor: Silva, Cleide
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/03/2011, Economia, p. B1

A marcha da economia durante o segundo mandato de Lula foi liderada pelo incentivo ao consumo, que sustentou a produção industrial e favoreceu um forte aumento das importações. Já no primeiro mês do governo de Dilma Rousseff vieram medidas de contenção do consumo, considerado incompatível com o controle da inflação.

Diante dessas medidas (crédito menos abundante, alta da taxa de juros, redução do prazo das vendas a prestações) alguns economistas estão prevendo um forte recuo da atividade econômica. Mas nos parece que o consumo deverá continuar robusto, porém, não generalizado como antes, e a indústria acompanhará com muita cautela o crescimento da demanda doméstica, o que deverá se traduzir pela manutenção de um crescimento sustentado das importações.

Já no primeiro bimestre há boa sustentação das vendas varejistas, confirmada pelas associações comerciais e pelas encomendas ao setor eletrônico da indústria da Zona Franca de Manaus. O índice Fecap das Expectativas nos Negócios, calculado pela Escola de Comércio Álvares Penteado, aponta alta de 3,3% em fevereiro. Todavia, a situação vai ser muito diferente conforme o ramo.

Sem dúvida, a melhoria da renda e a queda do desemprego contribuíram para sustentar a demanda neste início do ano. Alguns setores, no entanto, foram afetados não tanto pelo aumento da taxa de juros - que continua pouco considerada pelas famílias -, mas, sim, pela redução dos prazos de financiamentos no caso de produtos de valor elevado, como automóveis.

Paradoxalmente, a retração nas compras de automóveis leva as famílias a dispor de mais recursos para a aquisição de bens de menor valor. É uma situação que se observa no momento, em que a compra de unidade de habitação leva as famílias a ter gastos para mobiliá-la e, assim, passam a adquirir aparelhos eletrodomésticos. Em compensação, a demanda por artigos cujos preços dependem do das commodities, como os têxteis, apresenta-se em queda.

Nos próximos meses, num cenário em que os rendimentos não continuarão aumentando como no ano passado, e em que pode haver um aumento do desemprego, se a indústria não acompanhar o crescimento da demanda interna, preferindo recorrer à importação, iremos registrar uma queda do PIB, que deverá decorrer também de uma política mais austera nos gastos do governo. Não nos parece que possa o País entrar numa recessão, levando em conta os investimentos previstos, mas a velocidade do crescimento será menor.