Título: Investimento: a má notícia do PIB
Autor: Caldas, Suely
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/03/2011, Economia, p. B2

O jeito prudente da presidente Dilma Rousseff em comentar a alta de 7,5% do PIB de 2010 contrastou com a euforia de seu ministro da Fazenda. Guido Mantega apressou-se em convocar jornalistas e, com incontida empolgação, exaltou a boa notícia, tão logo foi divulgada pelo IBGE. Dilma considerou a taxa "razoável" e tratou de acrescentar que será menor em 2011, porque o governo não permitirá descontrole da inflação. "Vamos ter um olho na atividade, outro no investimento", afirmou.

Comentário sensato, não fossem as brechas saídas de contraditórias decisões do governo, que têm alimentado desconfianças de que não há muita disposição real para reduzir os gastos públicos e frear a atividade econômica na dimensão que ela precisa para trazer a inflação para o centro da meta de 4,5%. E por que acabar com a festa do crescimento, se é bom ter emprego e dinheiro no bolso? Simplesmente porque a inflação é um mal muito pior, capaz de destruir a festa, eliminar empregos e esvaziar os bolsos. Com inflação controlada a festa pode continuar, com o som menos estridente, mais calmo, porém, mais seguro para prosseguir.

Com razão, Dilma citou o investimento ao falar do PIB. E essa foi a pior notícia anunciada pelo IBGE na quinta-feira. O investimento cresceu 21,8% em relação a 2009, mas tal resultado foi favorecido pela base de comparação, já que em 2009 as empresas engavetaram e não realizaram seus projetos de investimento por desconhecer quanto tempo duraria a crise financeira. Com o quadro melhorando no final de 2009, elas desengavetaram os planos. Mas, no segundo semestre, o investimento voltou a enfraquecer, os projetos foram minguando e a taxa de crescimento caiu.

Desde o Plano Cruzado, em 1986, o PIB não registrava alta tão expressiva. Apesar disso, a taxa de investimento da economia fechou 2010 em 18,4% e não recuperou nem o nível de 19,1%, anterior à crise. A China, que cresce continuamente há mais de 20 anos, sustenta sua expansão com uma taxa de investimento de 40%. O Brasil nem sequer chegou aos 20%. Daí esse movimento de gangorra, esse sobe e desce instável e inseguro da atividade econômica, que condena o País a recuar quando dá um passo maior que as pernas, mesmo com pernas curtas.

O diagnóstico desse nó que não desata o investimento é conhecido há tempos. E o governo Lula passou oito anos sem, pelo menos, tentar começar a desfazê-lo. Mais marketing do que resultados reais, o PAC pouco ou nada fez para eliminar os gargalos que bloqueiam o dinamismo da economia e dependem de investimento público para serem concretizados. Ao longo de oito anos, aeroportos, portos, estradas, ferrovias, hidrelétricas quase nada se expandiram ou se modernizaram e o investimento muitas vezes foi alvo de corrupção. O caso dos aeroportos é o mais flagrante. O dinheiro ali injetado foi desviado e a Copa vem aí com aeroportos saturados.

Se quiser virar o jogo e expandir o investimento público em infraestrutura, o primeiro ato de Dilma será reduzir outras despesas e direcionar o dinheiro para investimento. O governo ensaiou nessa direção, prometeu cortar R$ 50 bilhões do Orçamento. Mas parece não haver disposição firme e inquestionável. O detalhamento dos cortes, de tão frágil, caiu no descrédito e os mais experientes creem que o controle dos gastos continuará a ser feito na boca do caixa, sem programação que permita planejar e assegurar a realização de projetos.

O investimento privado em infraestrutura passou oito anos do governo Lula esbarrando na falta de regras de regulação bem definidas e seguras e em agências reguladoras inconfiáveis, dirigidas por enviados de partidos políticos com seus negócios. Dilma deu sinais positivos de mudança. O primeiro foi anunciar que dará força e autonomia para as agências e nomeará técnicos competentes para dirigi-las. Se conseguir, pode impulsionar o setor privado para desfazer gargalos inibidores do crescimento.

Para ganhar este jogo, Dilma Rousseff vai precisar de coragem política para expulsar corruptos, capacitar e despolitizar agências e suas regras. A ver.