Título: Crescimento global será afetado apenas temporariamente
Autor: Landim, Raquel
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/03/2011, Economia, p. B1

O prejuízo econômico do Japão em decorrência do terremoto devastador e do tsunami que se seguiu provavelmente anulará apenas uma parcela mínima do crescimento global, mas poderá implicar um aumento da inflação por um período mais prolongado. Como o país é a terceira maior economia mundial, a queda do Produto Interno Bruto (PIB) japonês, qualquer que seja sua magnitude, afetará a economia global.

Também poderá contribuir para elevar em parte os custos dos empréstimos no exterior, em razão da repatriação japonesa de investimentos, possivelmente as consideráveis posições em títulos americanos. As previsões são confusas por causa da grande incerteza em relação aos prejuízos no Japão.

Paul Mortimer-Lee, diretor de economia de mercado no BNP Paribas, disse que, na avaliação de sua companhia, o desastre deverá reduzir em 3% o PIB projetado do Japão para este ano. Como o país contribui com cerca de 6% para o PIB global, isso corresponde a cerca de 0,2% da produção mundial.

Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento global deverá ser de 4,4% este ano. Portanto, a redução seria menor, com poucas perspectivas de nova crise.

Uma queda menor do PIB japonês - como a redução de 0,5 ponto porcentual do crescimento econômico do primeiro trimestre calculado provisoriamente pela Nomura - proporcionaria um impacto proporcionalmente menor em termos globais. Mas é provável que o impacto seja sentido mais na Ásia, que lidera a recuperação econômica mundial.

"Podemos prever que a produção da Ásia será afetada", afirmou Mortimer-Lee. A China é o grande destaque do crescimento global, e a expansão de sua indústria carrega consigo o restante do mundo. É esse aspecto que poderá ser afetado agora. O Japão é o segundo ou o terceiro maior destino das exportações chinesas, dependendo das estimativas, e a maior origem das importações da China.

Em relação à inflação global, existem perspectivas ambivalentes. Pelo menos no curto prazo, uma desaceleração do crescimento econômico global - por menor que fosse - deveria reduzir a pressão inflacionária, como foi possível constatar na queda acentuada dos preços do petróleo nos últimos dias.

Isso eliminaria um obstáculo à persistente recuperação econômica global. Mas por quanto tempo? Se todo setor industrial importante tiver de reduzir o ritmo por problemas de oferta e não de demanda, provavelmente acontecerá o inverso.

Antes da catástrofe, com o golpe devastador ao seu setor nuclear, o Japão já era o terceiro maior consumidor de commodities. "As importações de petróleo aumentarão para substituir em parte a energia nuclear perdida. Considerando a atual redução da oferta no mercado petrolífero, isso poderá ter importante consequências para os preços (globais) do óleo", escreveu Eliane Tanner, estrategista de commodities da Sarasin.

Ontem, em parte por causa das expectativas de que as companhias asiáticas se beneficiem da enorme reconstrução que agora se seguirá, as ações dos mercados emergentes subiram, enquanto a maioria dos outros índices caía. Deixando de lado a imensa tragédia humana, haverá certa compensação pelos danos provocados pelo desastre. Não há dúvida de que a simples escala da catástrofe produzirá um choque na economia global, pelo menos no curto prazo. E não convencerá consumidores e investidores céticos de que a economia global já deixou para trás anos de crise.