Título: Acidente no Japão vai definir plano brasileiro
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/03/2011, Internacional, p. A11

As quatro usinas nucleares que Brasil quer construir até 2030 podem nem sair do papel

O governo condicionou o projeto de construção de novas quatro usinas nucleares no país aos desdobramentos do acidente nuclear no Japão. As quatro usinas foram planejadas para entrar em operação até 2030, mas poderão nem sair do papel, segundo indicou o ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia).

"Se os protocolos evoluírem para restrições mais severas ou mesmo para a interrupção de operação das usinas, o Brasil estará associado às exigências", disse o ministro ontem.

Ele estava acompanhado do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Gonçalves, que ainda minimiza o impacto dos problemas em usinas japonesas. "Até agora, na escala oficial, ainda não temos um acidente, mas um incidente, grau quatro, numa escala que vai até sete", disse.

O presidente da CNEN considerou "precipitadas" as decisões de países que já deram sinais de que pretendem frear seus programas nucleares.

No programa nuclear brasileiro, escolha do local onde serão construídas quatro novas usinas nucleares depende de uma decisão política da presidente Dilma Rousseff e de um conjunto de ministros. A área técnica do governo já apresentou opções de locais mais indicados.

"Hoje, Angra dos Reis (onde se localizam as três primeiras usinas brasileiras) não seria o local mais desejável, a população cresceu muito", comentou Gonçalves. A sugestão técnica é que duas das novas usinas sejam construídas no Nordeste, às margens do Rio São Francisco. Outras duas ficarão no Sudeste.

"Estamos falando de um projeto de longo prazo, temos todo o tempo para decidir com segurança", insistiu Mercadante.

O ministro destacou que as usinas nucleares de Angra têm mais segurança do que as usinas japonesas. "O prédio de contenção das nossas usinas é mais espesso, elas foram preparadas para enfrentar terremotos de até 6,5 pontos na escala Richter e ondas de até sete metros", disse.

"Qual usina hidrelétrica foi preparada para um terremoto dessa magnitude?", questionou. As usinas de Angra 1 e 2, assim como Angra 3, ainda em construção, também poderão ser adaptadas a novos padrões de segurança. "A lição do Japão será indispensável à operação das usinas já instaladas e às novas que eventualmente forem construídas", disse Mercadante.