Título: Síria admite fazer concessões a opositores
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/03/2011, Internacional, p. A14

Forças de segurança mataram mais de 100 pessoas em Daraa, dizem os manifestantes, e seria preciso uma semana para enterrar todas as vítimas

Hussein Malla/APViolência. Mesquita na cidade de Daraa: cerca de 20 mil pessoas participam de funerais Pressionado por protestos que já deixaram mais de 100 mortos, segundo os opositores, o governo da Síria prometeu ontem estudar as reivindicações "legítimas" da população e investigar se houve excessos na repressão contra dissidentes na cidade de Daraa, no sul do país.

Durante coletiva em Damasco, Buzeina Shaaban, conselheira do presidente Bashar Assad, anunciou que o governo estuda a suspensão do estado de emergência, vigente desde 1963, e transmitiu as condolências aos parentes das vítimas em Daraa.

Cerca de 20 mil pessoas participaram ontem dos funerais das vítimas das forças de segurança. No caminho para o cemitério, os manifestantes gritaram slogans contra o regime. "Há certamente mais de 100 mortos e a cidade precisa de uma semana para enterrá-los", disse o ativista Ayman al-Aswad.

O massacre colocou o governo contra a parede. Ontem, Damasco insistiu que os protestos não têm relação com a insatisfação popular de outros países árabes. Buzeina culpou a influência estrangeira pela desordem. "Daraa foi escolhida não por sua situação social ou econômica, mas por sua proximidade com a fronteira (da Jordânia) e pela facilidade que alguns grupos encontram lá para receber armas e desestabilizar a Síria", disse.

A conselheira disse também que o governo pretende suspender "as detenções arbitrárias" em todo o país e afirmou que autoridades sírias estão elaborando novas leis que regulamentam partidos políticos, ampliam a liberdade de imprensa, reforçam o Judiciário e criam mecanismos para combater a corrupção. Outras medidas do governo incluem uma série de ações sociais, entre elas o aumento imediato dos salários dos funcionários públicos e novos investimentos para a criação de empregos.

Todas as decisões foram adotadas após reunião da direção do Partido Baath, liderado por Assad e único permitido no país. A conselheira do presidente disse que são "exageradas" as informações divulgadas pela imprensa estrangeira e destacou a "credibilidade da TV estatal síria". "Vemos que a campanha tem como alvo a Síria, porque somos a linha segura da resistência", afirmou, em referência ao apoio do país ao Hezbollah e ao Hamas.

A onda de protestos na Síria começou no dia 15, após a convocação de uma passeata pela internet. Os manifestantes exigem abertura política, o fim do estado de emergência e dos tribunais de exceção. Assad assumiu o poder em 2000, mas sua família governa o país há 40 anos - seu pai, Hafez, tomou a presidência após um golpe de Estado, em 1971. / AP e REUTERS

PROMESSAS

Investigação sobre excessos na repressão em Daraa e suspensão de prisões arbitrárias

Regulamentação de partidos políticos e mais liberdade de imprensa

Fortalecimento do Judiciário, combate à corrupção e aumento de salários