Título: Desertor dá à Otan detalhes do regime
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/04/2011, Internacional, p. A10
Premiê britânico diz que o ex-chanceler líbio não terá privilégios políticos em Londres
Nasser Nasser/APOfensiva. Rebeldes disparam foguetes contra forças de Kadafi perto da cidade de Brega O ex-homem forte da política externa de Muamar Kadafi, Moussa Koussa, já está em Londres e colaborando com a Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a coalizão. O chanceler, que abandonou o posto e deixou a Líbia, foi ouvido ontem por autoridades britânicas em busca de informações sobre o real estado do regime. Horas depois de receber Koussa, o secretário de Estado britânico, William Hague, disse que o governo de Kadafi está implodindo.
Koussa foi a maior deserção do regime líbio desde o início dos protestos populares. Ele chegou na quarta-feira a Londres depois de deixar seu país por terra e ir para a Tunísia. De lá, partiu em um jato do governo britânico - o que indica o papel da coalizão em sua dissidência.
Ontem, o ex-chanceler Ali Abdussalam el-Treki, que Kadafi nomeou como embaixador na ONU, rejeitou o cargo, desertou para o Egito e condenou o "derramamento de sangue" em seu país.
O governo do premiê David Cameron afirmou que o chanceler líbio não terá privilégios políticos e responderá por crimes dos quais venha a ser acusado. "Koussa não está recebendo imunidade. Não nenhum acordo", afirmou ao Parlamento. Koussa pode até mesmo ser implicado em uma investigação que está sendo realizada na Escócia pelo atentado de Lockerbie, em 1988.
Para Cameron, o abandono do regime por parte de Koussa "demonstra o grande descrédito e decadência do regime de Muamar Kadafi. Hague foi mais longe: "Sua demissão mostra que o regime de Kadafi, que registrou deserções significativas, está dividido, sob pressão e desaba internamente, Kadafi deve se perguntar quem será o próximo a abandoná-lo".
Na Líbia, o porta-voz do governo, Moussa Ibrahim, tratou de reduzir a importância da dissidência de Koussa. Segundo ele, o chanceler de Kadafi sofre de diabetes, tem pressão alta e está velho para aguentar o conflito. Mas, na prática, a perda é importante para Kadafi. Koussa é tido como uma espécie de "caixa-preta" do regime por ter sido chefe do Serviço de Inteligência entre 1994 e 2009. Desde 1988, pesavam contra ele suspeitas de que teria participado do planejamento do atentado de Lockerbie. Mas, a partir de 2000, tornou-se símbolo da abertura da Líbia e da conversão de Kadafi de pária a chefe de Estado respeitado.
Ainda ontem, o Vaticano rompeu seu silêncio e denunciou a morte de ao menos 40 civis nos ataques da coalizão contra Trípoli. A declaração foi feita pelo representante da Santa Sé na Líbia, Giovanni Martinelli. Essa é a primeira vez que uma entidade fora da Líbia denuncia as mortes de civis, uma alegação recorrente do regime Kadafi para justificar a resistência. A Otan disse ao Estado que as declarações do Vaticano estão sendo "investigadas". / JAMIL CHADE, DE GENEBRA
DESERÇÃO
Consequência da renúncia: A deserção de Moussa Koussa deve prejudicar Muamar Kadafi, mas não está claro se significará o fim do ditador. Por quatro décadas, Koussa exerceu influência no governo, mas não pertencia ao círculo restrito
Benefícios: Koussa estava no centro do poder de decisão da Líbia. Durante anos ele dirigiu a Organização de Segurança Externa. Foi nomeado chanceler em 2009. O possível benefício de sua saída para o Ocidente é que poderá revelar informações sobre o funcionamento do governo Kadafi e os pontos fracos a ser explorados para derrubar o ditador
Divisão: Para o analista Geoff Porter, a saída de Koussa é um dos primeiros sinais de que a elite de Kadafi está se cindindo. "Significa que mesmo funcionários de alto escalão acham que o jogo está prestes a acabar"